“Portas de Portugal e Marrocos: um sentido
comum”
.
“O
Reino de Marrocos e Portugal, situados no extremo ocidental deste pequeno
“pátio” ou “praça” que é o mar Mediterrâneo, forjaram ao longo de mais de sete
séculos de vivência comum um conjunto de continuidades antropológicas, sociais
e artísticas que constituem um bom exemplo de sincretismo cultural. Na verdade,
durante o tempo em que ambas as regiões eram províncias de mesmo Império
Romano, durante os cinco séculos em que o sul de Portugal foi o Gharb al
Andalus e durante os séculos em que Portugal esteve presente nas cidades do
litoral de Marrocos, foram sendo transmitidos saberes, acumuladas tradições e
conservadas memórias que constituem, ainda hoje, um Património Comum feito de
continuidades.
No
domínio da arquitectura tradicional essa continuidade é bem evidente, tanto a
nível de materiais, como de volumetrias, soluções formais e funcionais e até na
maneira sábia de dar solução estética e cuidada às necessidades mais
quotidianas. Nesse conjunto de soluções o elemento “porta” assume nos dois
lados deste extremo do Mediterrâneo, uma idêntica abordagem interpretativa.
Com
efeito estamos perante uma civilização comum em que tanto a nível da sua
funcionalidade como a nível do imaginário a porta é um elemento fundamental da
estrutura arquitectónica. Antes de mais, as portas servem para fechar e
proteger; mas elas servem também para dar passagem e para acolher:
- ao fechar e proteger a casa privada, ou mesmo o
edifício público (civil ou religioso), a porta deverá resistir à
intromissão de pessoas indesejáveis, de olhares indiscretos, do vento, da
poeira, das oscilações térmicas e até das invejas dos vizinhos …
- ao servir para dar passagem a porta
deve ser generosa na sua funcionalidade e também simbólica em cada momento
de passagem: deixar passar quem é bem-vindo mas também dar a última
passagem aos que partem para uma outra vida…; ela deve também dar passagem
ao ar, à brisa fresca da noite, servindo aí como precioso elemento de
ventilação dos espaços interiores quando convenientemente articulada com
os pátios, com os “malkafs”, etc;
- ao servir para acolher quem vem do
exterior e muitas vezes de longe, ela deve ser simbolicamente bela e
nobre: não nos podemos esquecer que nas civilizações que têm por
denominador comum o deserto do Sahara, quem chega vem muitas vezes de um
longo e penoso percurso, pelo que deverá ser generosamente recebido, sendo
a porta o primeiro desses elementos de boas vindas.
- ao chamar para espaços sagrados
(mesquitas, “zaowias”, igrejas, etc) ou para espaços de negócio
(“foundouks”, albergarias, etc) todos os que, circulando no exterior, são
atraídos pela imponência da porta e até pela sua centralidade com o “wost
ed dar” o que, aliás, contrasta com a não centralidade da porta dos
espaços familiares que, sendo essencialmente femininos, estão resguardados
por um acesso em cotovelo (“skiffa”).
É
neste contexto de funcionalidade e de simbolismos que, tanto em Portugal como
no Reino de Marrocos, as portas tradicionais foram adquirindo características
próprias tanto a nível dos seus materiais, como também da sua estruturação e
dos seus elementos decorativos.
A
nível dos materiais, como é sabido, reserva-se habitualmente para a porta
principal de acesso ao edifico a madeira mais nobre, tanto nacional como
estrangeira. Se no caso português temos o carvalho ou o bom pinho (a par da
nogueira e da cerejeira), já em Marrocos, onde a escassez de florestas é mais
evidente, são três as qualidades autóctones de madeira usadas tradicionalmente:
o cedro, a tuia e a nogueira. Como madeiras de importação usadas com frequência
citaremos o ébanode Madagáscar, o acaju do Gabão e da Costa do Marfim e o samba (que
terá existido em Marrocos embora actualmente provenha da África Central). É,
contudo o cedro do Atlas (das zonas de Azrou, Khénifra e Midelt), nas suas três
qualidades diferentes, que foi sempre preferencialmente utilizado na
arquitectura. Segundo a tradição, a madeira de cedro necessita de pelo menos
quarenta anos para compreender que foi cortada da sua mãe...
Tipologicamente
e estruturalmente, há, como é evidente, diferenciação entre as várias portas de
um edifício, sendo reservada para a porta principal exterior a maior relevância
qualitativa. De salientar que na arquitectura tradicional dos edifícios
residenciais de Marrocos podemos identificar com facilidade três tipologias
estruturais de portas:
- a porta de entrada (“bab ed dar”);
- as grandes portas dos salões interiores, abertas
para os pátios (“dfef”);
- as portas interiores das várias dependências (“medakhel”).
Para
dar resposta às funções de protecção visual, filtragem da luminosidade excessiva
e propiciar a passagem de ar e correspondente ventilação, muitas das portas
exteriores incorporam um ou vários painéis de “moucharabieh”. Estas mesmas
funções são satisfeitas em Portugal com os tradicionais painéis de reixa.
Os
elementos decorativos das portas constituem, tanto em Portugal como no Reino de
Marrocos, uma notória preocupação para os seus criadores e elementos como
“moucharabiehs” ou reixas assumem também essa função estética. Mas não será
difícil encontrarmos também “mouqqarnas” ou trabalhos de pintura tradicional do
tipo “zouaq” como elementos decorativos complementares. De acordo com a lógica
comum que no devir do tempo se foi criando neste extremo “gharb do
mediterrâneo” os elementos decorativos usados nas portas são preferencialmente geométricos
ou fitomórficos, o que, aliás, decorre de preceitos corânicos fundamentais.
Este princípio alarga-se também aos acessórios de ferro forjado (grades,
ferrolhos, “zekrouns”, mãos de Fátima, etc) que muitas vezes aparecem
associados à madeira, tanto com função de reforço estrutural como de mera
guarnição decorativa ou de simbólicos elementos protectores.
A
relevância física, visual e até psicológica que a porta principal de um
edifício tem, tanto para o dono da casa, como para quem a projecta e também
para quem a observa ocasionalmente, continua, mesmo actualmente, a ser
determinante para a sua concepção e aceitação. Na arquitectura contemporânea
destes nossos territórios exemplos recentes mostram essa relevância: citemos o
caso da Igreja do Marco de Caneveses, as portas da Mesquita Hassan II de
Casablanca, entre tantas outras que continuam a ser criadas.
Mas
também a nível das urbes as portas da Cidade ou da Medina são
elementos delimitadores de uma comunidade e consequentemente simbólicos da sua
segurança, do seu poder e da sua representação mental colectiva. Nas Medinas as
portas definem, aliás, os próprios eixos de penetração do tecido urbano e podem
igualmente tomar o nome dos territórios exteriores para onde estão voltadas:
citemos o caso de Bab Doukkallâa, uma das sete portas da Medina de Marrakech.
Também é forte o simbolismo de oferecer as chaves das portas da cidade a quem
queremos honrar.
A porta
da casa encerra em si um significado que tem também uma relação com a
imagem exterior que se quer projectar e porventura com o conceito mais profundo
de ser também a porta da vida:
por ela se acede à vida da família (tal
como a chegada ao nascer),
por ela se sai do convívio familiar, uma
derradeira vez, no fim da vida…”
.
“Texto
extraído do livro “Open doors for crafts and dialogue” referente ao projecto de
cooperação com a mesma designação que reuniu artesãos, criadores e
investigadores do Egipto, Marrocos, Portugal, Espanha e Alemanha. “
.
JOSÉ ALBERTO ALEGRIA, arquitecto e Cônsul do Reino de Marrocos no
Algarve
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