“SINTO-ME SÓ COMO UM SEIXO DE PRAIA”
“Sinto-me só como um seixo de praia
Vivendo à busca no cristal das ondas,
Não sei se sou o que não sou. Pressinto
Que a maré vai morar no fundo d'alma.
Calo-me sempre se te escuto vindo
Marulho de incerteza e de agonia;
Há crenças deslizando nos meus traços,
Molhando a estátua do meu sonho antigo.
Declino-me nas frases dos rochedos
Nas pérolas de som do inesquecer
Na incrível sombra da montanha adulta.
E ao curvar ao peso da memória,
Descubro meu reflexo obscuro
Num soneto de espumas inexactas.”
VINICIUS DE MORAES
(Vinício de Moraes, Livro de Sonetos, Companhia das Letras, São Paulo, 2008)

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