“(...) As poéticas de Carlos Drummond de Andrade e Munch apresentam uma profunda identidade, sobretudo quando buscam traduzir as inquitações do ser diante da vida, da morte e diante de um mundo caótico constituido por sociedades injustas e repressoras, que contribuem, antes de tudo, para ampliar o sentimento do medo.
No poema “O medo”, de A Rosa do Povo, Drummond de Andrade elabora imagens de um mundo feito de horror que se assemelha profundamente com O Grito de Munch:
“E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
(...)
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
(...)
Nossos filhos tão felizes...
Fieis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.”
[DRUMMOND DE ANDRADE]
A propagação do medo, que na obra de Munch acontece a partir da reverberação do grito da figura pela natureza, no poema drummoniano, numa forma através dos “herdeiros do medo”, que, em progressão infinita, se espalham por todo o universo, “dançando o baile do medo”. (...)” (Fernando França, O Diálogo entre Literatura e Artes Plásticas em Arte em Exposição, de Carlos Drummond de Andrade, Expressão Gráfica e Editora, Fortaleza, 2007)

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