“(...) Quem poderia entender essa confusão de religiões? Pois se havia, ao mesmo tempo, hinduístas com seus brâmanes, e maometanos; budistas, com seus bonzos, e adoradores do fogo; servos de Shiva e de Krishna, uns usando turbantes e outros com as cabeças rapadas, uns vestindo apenas branco como outros só amarelo ou vermelho; e mais os que adoravam cobras e tartarugas sagradas. Onde encontrar o Deus a quem todos eles serviam? Qual seria a aparência d'Ele para toda essa gente devota? Qual o culto mais antigo, mais sagrado e mais puro?
Ninguém lhe sabia explicar isso e os próprios hindus pareciam reservados em falar-lhe a respeito, como se não estivessem muito interessados no assunto. Ora, pensava Aghion, quem não está satisfeito com a religião de seus país muda para outra, sai como peregrino em busca de uma nova religião ou, inclusivé, acaba criando uma nova.
Aos deuses e espíritos, cujos nomes ninguém lhe explicava, eram oferecidos alimentos em pequenas tigelas e todas essas centenas de serviços religiosos, de templos e ordens sacerdotais conviviam alegremente, lado a lado, sem que os adeptos de uma crença pensasssem em odiar os das outras, persegui-los e matá-los como era costume nos países cristãos.
Achava até bonita e delicada muita coisa que via: a música dolente das flautas, as graciosas oferendas de colares de flores, as delicadas reverências. E no rosto dos devotos surpreendia ele uma expressão de calma interior, de paz profunda, que em vão se procuraria no rosto preocupado e tenso de inglês. (...)” HERMANN HESSE (Hermann Hesse, Pequeno Mundo, contos, 3a. Edição, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1975 (1954))
Recent Comments