“OS BRASILÍNDIOS” A expansão do domínio português terra adentro, na constituião do Brasil, é obra dos brasilindios ou mamelucos. Gerados por pais brancos, a maioria lusitanos, sobre mulheres índias, dilataram o domínio português exorbitando a dação de papel das Tordesilhas, excedendo a tudo o que se podia esperar.
Os portugueses de Sao Paulo foram os principais gestadores dos brasilíndios ou mamelucos. O motor que movia aqueles velhos paulistas era, essencialmente, a pobreza da feitoria paulista, mera vilazinha alçada no planalto, a quatro dias de viagem do mar, que se alcancava dificultosamente através da selva e de águas tormentosas, subindo e descendo escarpadas morrarias. (...)”
Os brasilíndios ou mamelucos paulistas foram vítimas de duas rejeições drásticas. A dos pais, com quem queriam identificar-se, mas que os viam como impuros filhos da terra, aproveitavam bem o seu trabalho enquanto meninos e rapazes e, depois, os integravam a suas bandeiras, onde muitos deles fizeram carreira. A segunda rejeição era a do gentio materno. Na concepção dos índios, a mulher é um simples saco em que o macho deposita sua semente. Quem nasce é o filho do pai, e não da mãe, assim visto pelos índios. Não podendo identificar-se com uns nem com os outros de seus ancestrais, que o rejeitavam, o mameluco caía numa terra de ninguém, a partir da qual constroi sua identidade de brasileiro.
Assim é que, por via do cunhadismo, levado a extremo, se criou um género humano novo, que não era, nem se reconhecia e nem era visto como tal pelos índios, pelos europeus e pelos negros. Esse género de gente alcançou uma eficiência inexcedível, a seu pesar, como agentes da civilização. Falavam sua própria língua, tinham sua própria visão do mundo, dominavam uma alta tecnologia de adaptação á floresta tropical. Tinha isso aurido do seu convívio compulsório com os índios de matriz tupi. DARCY RIBEIRO (Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil, Companhia das Letras, São Paulo, 1a reimpressão, 2006 (1995))

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