“OS AFRO-BRASILEIROS” “ Os negros do Brasil foram trazidos principalmente da costa ocidental africana. (...) quanto aos tipos culturais, três grandes grupos. O primeiro, das culturas sudanesas, é representado, pricipalmente, pelos grupos Yoruba – chamados nago', (...) O segundo grupo trouxe ao Brasil culturas africanas islamizadas (...) O terceiro grupo cultural africano era integrado por tribos Bantu, do grupo congo-angolês, provenientes da área compreendida pela Angola e a “Costa do Marfim, que corresponde ao atual território de Moçambique.
A contribuição cultural do negro foi pouco relevante na formação daquela protocélula original da cultura brasileira. Aliciado para incrementar a produção açucareira, comporta o contingente fundamental da mão-de-obra. Apesar do seu papel como agente cultural ter sido mais passivo que ativo, o negro teve uma importância crucial, tanto por sua presença como a massa trabalhadora que produziu tudo que aqui se fez, como por sua introduão sorrateira mas tenaz e continuada, que remarcou a amálgama racial e cultural brasileira com suas cores mais fortes.
Tal como ocorreu com os brancos, vindos mais tarde a integrar-se na etnia brasileira, os negros, encontrando já constituída aquela protocelula luso-tupi, tiveram de nela aprender a viver, plantando e cozinhando os alimentos da terra, chamando as coisas e os espíritos pelos nomes tupis incorporados ao português, fumando longos cigarros de tabaco e bebendo cauim. (...)
Esta parca herança africana – meio cultural e meio racial -, associada às crenças indígenas, emprestaria entretanto à cultura brasileira, no plano ideológico, uma singular fisionomia cultural. Nessa esfera é que se destaca, por exemplo, um catolicismo popular muito mais discrepante que qualquer das heresias cristãs tão perseguidas em Portugal. (…)
Sem amor de ninguém, sem familia, sem sexo que não fosse a masturbação, sem nenhuma identificação possível com ninguém – seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de infortúnio, inimigos -, maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento e enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia sua rotina. Esta era sofrer todo o dia o castigo diário das chicotadas soltas, para trabalhar atento e tenso. (...)”
DARCY RIBEIRO (Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil, Companhia das Letras, São Paulo, 1a reimpressão, 2006 (1995))

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