"A orquestra oculta
O poeta Fernando Pessoa viu a sua alma como uma orquestra oculta. "Não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim", escreveu em O Livro do Desassossego. Só se conhecia como sinfonia. A intuição do poeta é deveras sagaz, pois se as construções que nos habitam a mente podem bem ser imaginadas como desempenhos musicais efémeros, tocados por várias orquestras ocultas, no interior dos organismos a que pertencem. Pessoa não se mostrou intrigado quanto a quem estaria a tocar todos esses instrumentos ocultos. Talvez se visse a ele mesmo em multiplicado, encarregue de tudo um pouco como o Oscar Levant em Um Americano em Paris, o que não surpreenderia no caso de um poeta que se inventou em tantos heterónimos. Mas não podemos e devemos perguntar: quem são, ao certo, os músicos dessas orquestras imaginárias? E eis a resposta: os objectos e os acontecimentos no mundo em torno do nosso organismo, presentes de facto ou recuperados pela memória, e os objectos e acontecimentos do mundo interior.
E quanto aos instrumentos? Pessoa não era capaz de identificar os instrumentos que tão bem ouvia, mas podemos fazer isso por ele. Há dois grupos de instrumentos nesta orquestra de Pessoa. Em primeiro lugar, os principais dispositivos sensoriais com que o mundo em redor e no interior de um organismo interagem com o sistema nervoso. Em segundo lugar, os dispositivos que continuamente reagem de forma emotiva á presença mental de qualquer objeto ou acontecimento. A reação emotiva consiste na alteração do rumo da vida no "interior antigo" dos organismos. Estes dispositivos são conhecidos como impulsos, motivações e emoções.
ANTÓNIO DAMÁSIO (António Damásio , A Estranha Ordem das Coisas, Círculo Leitores, Lisboa, 2017)

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