“(...) Vi um filme sobre Lutero, extraído de uma peça de Osborne, um dos angry men de há anos. Belo filme – bela peça que não conhecia. E de novo me pus a pensar no percurso do cristianismo. Sem premeditação, e para rever, reflecti que:
Há duas dominantes no homem, diversamente referenciadas, desde o Quixote à dicotomia de Nietzsche a propósito da tragédia grega: a razão e o sentir, Apolo e Dionisos, o diurno e o nocturno, o mediterrânico e o nórdico, a solaridade e a neblina, etc.
O cristianismo foi com Cristo um compromisso entre o paganismo e a espiritualidade, um modo natural de ser, sem excessos para cima ou para baixo. Mas S. Paulo injectou-lhe uma forte dose de espiritualização, criando-lhe excrecências que la não estavam, como o “pecado original” e não sei (a rever) se a divinização de Cristo, que nunca se disse Deus.
Dividido o cristianismo para oriente e ocidente, radicalizaram-se as componentes que o harmonizavam: o oriente extremou-se em “espiritualização”, justamente marcada pelo Velho Testamento; o ocidente acentuou a sua harmonização até à explosão do Renascimento – e a arte gótica é a recta final para isso. As duas dominantes do sentir e do pensar, da metafísica e da razão, da fé e do pensar, da metafísica e da razão, da fe e do pensar acompanham o cristianismo até ao nosso tempo.
E o lugar da sua visível separação esta em S. Agostinho e S. Tomás. S. Tomás realiza o prodígio genial de intrometer a razão na fé. Platão e Aristóteles anunciam esta dupla face espelhada nos dois santos. Mas S. Tomás, nesse seu génio, destruiu irremediavelmente o destino do cristianismo que privilegiadamente em S. Francisco recupera a unidade que teve em Cristo.
Lutero (que foi um frade agostinho) retoma a lição de S. Agostinho contra S. Tomás. E o protestantismo foi um retorno 'a verdade da fé. Milhentos pormenores complexificam a questão (como o individualismo renascentista na relação imediata com Deus, sem hierarquia nem santos – que são uma criação medieval e uma determinação da humanidade crista, ou como o interesse da burguesia nesse protestantismo pela luta contra os senhores nobres ou como a famosa oposição da neblina nórdica à claridade mediterrânica).
Mas o dado fundamental é este. Simplesmente, como ao cristianismo militante sucedeu o triunfante, assim aconteceu ao protestantismo. E é a altura de surgir Kierkegaard, que retomou o combate de Lutero. (...)” VERGÍLIO FERREIRA (Vergílio Ferreira, conta-corrente 3 - 1980-1981, Livraria Bertrand, Amadora, 1983)

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