“Estou agora a ler o Memorial de Santa-Helena de Las Cases, enquanto ouço uma sonata de Beethoven. Sabia do livro há milénios, como toda a gente. Nunca o lera. Que livro maravilhoso! Como Napoleão se nos revela admirável de observação, coragem moral, mesmo cultura histórica, ou sobretudo. Mas acabo de ler um pequeno e espantoso episódio por ele narrado. Conta Napoleão, com efeito, que apos uma certa batalha na Itália percorreu de noite o campo em que essa batalha se desenrolara, ainda coberto de cadáveres que não tinham sido recolhidos. Havia um grande silencio e todo o campo se banhava de luar. Então a certa altura, um cão irrompe, subitamente de junto de um cadáver ladrando em fúria contra o Imperador e companheiros. E logo depois volta para junto do cadáver e põe-se a lamber-lhe a face. Ladrava e lambia a face a pedir ajuda para a situação. Era o dono, fora morto em combate. Napoleão estremece de comoção, ali rodeado de mortos na solidão da noite, sob a grande lua que inundava todo o campo. Nunca pensara, diz ele, no destino individual dos soldados. Pensava sempre secamente sobre como vencer, movimentar as tropas para esse fim. Mas estava agora diante de um exemplo terrível de um morto num campo de mortos numa noite de silêncio e de lua, um morto, ignorado da família, velado ali pelo afecto único de um cão que lhe lambia a face e pedia ajuda de alguém. (...)” VERGILIO FERREIRA (Vergílio Ferreira, conta-corrente 3 - 1980-1981, Livraria Bertrand, Amadora, 1983)
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