– Estas brevivências foram escritas aos nacos independentes e sem formarem sequência cronológica. De comum tem o facto de serem brevivências e de acontecerem nestes últimos dias desta estadia em que a vontade de me ir embora, embora daqui, para o meu país do Norte europeu é cada vez maior. (Ao contrário do que é habitual e, do ponto de vista administrativo-constitucional, certamente estarei “errado”, sinto cada vez mais que a Europa é um pais constituído por 28 estados e não ao contrário...).
Como na vida, há excepções (“que confirmam a regra”): o número, enorme, de pessoas que tem vindo ter comigo, me chamando pelo meu nome, para minha grande surpresa. Muitos deles reconheço, outros já nem isso. O contentamento deles em me rever (bem visível nas palavras, no modo e na expressão) é muito reconfortante. É o outro lado da medalha. Infelizmente a primeira prevalece e cada vez mais, ano a ano, se torna mais forte.
– Há momentos tive uma longa conversa telefónica com o meu grande amigo brasileiro (quase só ao microscópio se pode encontrar uma coisa dessas, mas, raros, ainda há) M. . Ele lá anda mostrando de canto a canto do Brasil parte (mesmo assim excelente) da sua Arte. Digo “parte”, pois ele conhece a minha opinião/certeza, baseada na razão dos factos, que ele sabe e pode utilizar a sua criatividade artística de forma muitíssimo superior. Na conversa de hoje abri o saco (na sua essência) todo. Nada resolve, mas sabe bem haver outros, sobretudo um bom amigo, que entendem completamente o meu estado de espírito face ao, sobre dois aspectos, muito importantes, que têm acontecido. Que pensam exactamente como nós. Embora nada resolva, é mais um empurrão para continuar a lutar pela justiçaa, razão e bom senso.
– Estava na fila para uma sessão da Mostra do Novo Cinema Espanhol. Alguém chama-me pelo meu nome. Não o reconheci, o que lhe disse (faço sempre isso quando em situações semelhantes). Ele sabia até que eu era “fotógrafo” (aqui entramos nos nas diferenças de conceito entre as várias formas a que se aplica a designação de fotógrafo), o que de facto não sou, tão somente criador artístico usando Fotografia. Que nos tínhamos encontrado num carnaval do Trairi, através do M., e mais tarde nos tínhamos encontrado no Juazeiro do Norte e em Crato numa semana de Arte e Cultura. Ele me explicou, eu nem isso sabia, que íamos assistir a um filme espanhol (Normalmente não vou ao cinema, prefiro-o ver, de muita qualidade, em minha casa em enorme ecrã de plasma, mas aqui e agora tenho ido diariamente ao cinema, sem saber qual o filme, para como que esquecer a realidade de cá e matar o tempo que me resta para regressar ao meu país Europa, onde me sinto em casa). O filme era interessante. Pareceu-me certa semelhança no uso consequente da lentidão e na beleza formal dele com os dos filmes de Manoel de Oliveira. Gostei, de facto. Ele não. Cá fora, findo o filme, perguntei-lhe de novo que profissão tinha , pois aquando de uma primeira tentativa dissera querer vir a ser cineasta. Agora, como resposta seguiu-se uma série de críticas ao atraso nos pagamentos pelo Estado, etc. Achei chegado o momento para lhe dizer: “Até amanhã”.
– Quando se não procura é quando se encontra, poderia dizer sobre um dia destes. Como, aliás, tem sido quase toda esta estadia.
Quem diria que voltaria, logo de manha, a ter conversa de meia hora com a W.B., ou que por trás de nos por vezes passaria, como fantasma de opereta de má qualidade, uma jararaca (informação: jararaca é uma serpente aqui existente, tão venenosa quanto bela exteriormente) que ainda não me merecera número? Que me veria vir duas outras dessas jararacas quando me dirigia para filme no Dragão do Mar? Que, reentrado, ao procurar documentos, se me deparei com pérolas documentais de minha vida? Não estou a falar de um poema que escrevi (no tempo em que ainda fazia dessas coisas...).
Estou, sim, a referir-me a transcrição de alguns e-mails trocados há anos entre o J-H e eu . Reli partes e mergulhei num mundo de bondade, ternura, amor, transparência, honestidade, inteligência e outras coisas que eram (e são) ele. Diferença entre a sombra jararaquiana e a W.B. quase não poderia haver maior. Contudo, o abismo de afastamento e de oposição total e completa entre as outras jararaquitas e o J-H (assim como o R., a que ele tão carinhosamente se refere num dos e-mails, mesmo que nunca se tenham conhecido pessoalmente para além das minhas palavras). O capítulo de um livro que o J-H acabara de escrever e que, de imediato, me enviou por internet.
Mundos, planetas, tudo o que de diferente se possa conceber, é o que separa bichos maus da pérola de pessoa que vive e salta dos e-mails que acabo de ler. Tudo num dia. No mesmo. Tão forte e profundo que quase impossível de passar para aqui o que sinto e penso..
Socorro-me de uns versos da Ode à Alegria de Schiller, como utilizada na Nona Sinfonia de Beethoven:
– “[Meus amigos, paremos com estes sons! / Levantemos aos ceus cânticos belos, / E plenos de alegria!]
– (...) Todos os homens se tornam irmãos / Quando as tuas suaves asas nos conduzem. / Quem conseguiu o bem supremo / De fazer amizade com um amigo, / Ou obteve uma doce esposa, / Esteja connosco em grande júbilo! (...)”

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