Não. Hoje não vou escrever sobre os defeitos dos brasileiros (palavra demasiado generalizante) ou, mais concretamente, de uma parte substancial dos nordestinos brasileiros com quem tenho contacto.
A razão é simples: Estes últimos dias de uma estadia que desejava chegasse rapidinha ao fim foram bons, por vezes muito bons. Quando me propus/dispus (contra o meu íntimo desejo) a vir aqui passar estes dois meses coloquei como duas únicas finalidades tratar de assuntos objectivos não interpessoais, nem de criação fotográfica, e rever/falar com uns 3 a quatro amigos/bons conhecidos. O que aconteceu quanto ao primeiro objectivo realizou-se, não na extenão que eu desejava, mas a diferença entre as coisas na Europa (do Norte) e o Nordeste do Brasil são tão gigantescamente enormes, que a satisfação plena desse primeiro objectivo seria um sonho e não realidade conseguível. Quanto ao segundo objectivo, deu-se o oposto. Pouco pude falar com duas pessoas com quem queria falar longa e profundamente, conversar muito, não interessa agora a razão, mas em compensação falei, conversei, convivi, com muitas outras não programadas. E este não-objectivo foi excepcionalmente bom. Antigos amigos e bons conhecidos que inesperadamente encontrava, outros que me procuravam e quase outros tantos acabei por conhecer.
- Nos dias em que na verdade estava mais desejando ir-me para a minha querida Europa (os europeus que lá desfazem dela, deveriam viver/passar por situações por que aqui passei, para perceberam a sorte enorme que temos em viver na União Europeia) matava parte do tempo indo imensas vezes ao cinema e com doses de internet com a leitura de jornais e de notícias de grandes órgãos de comunicação social. -
– Quero no meio disto tudo salientar, para além das duas longas conversas com o meu verdadeiro amigo J. (que conheço bem há anos e anos) e do reencontro muito especial com o G., em que tive a oportunidade de esclarecer a razão, por ele até agora desconhecida, por que a nossa amizade tinha sido acabada abruptamente há anos. Foi ele que então a acabou pensando que eu tinha cometido grave falta para com ele. Ao telefone desde S. Paulo, estava tão furioso que foi impossível explicar-lhe fosse o que fosse. Passaram os anos, dentro de mim continuei a senti-lo como amigo, mas lamentava muito como duas pessoas de bem e amigas de repente assim se afastam.
– Há umas duas ou três semanas, preparava-me eu para levar o tabuleiro com o meu almoço para a mesa do Sesc (“Centro de Criatividade e Artes” – o nome exacto é mais complexo ), onde diariamente aqui almoço, quando , de repente ele está ao meu lado e me saúda com o sorriso outrora tão habitual. Naquele momento e situação só deu tempo para eu dizer que tinha que lhe pedir desculpa de um erro meu, mas conjuntamente lhe explicar a razão objectiva do que na altura dissera. E, sobretudo, para lhe afirmar e provar que a acusação que ele então me gritara ao telefone simplesmente nunca existiu, nunca tinha sido verdade. Fiquei esperando a oportunidade. Isso aconteceu anteontem, tendo ele, desde logo, dito que não era preciso eu pedir desculpas, já tantos anos atrás isso se passara. No entanto, como gosto de verdades e coisas bem esclarecidas, anteontem foi possível esclarecer tudo perfeitamente. Reafirmámos nossa amizade e sei, no caso dele, que ao dizê-lo não está a mentir.
- Outra coisa muito boa foram as muitas conversas, no mesmo local dos encontros com o G., com a Wilemara Barros, desde há muito a melhor bailarina do Ceará. Ela há semanas que me tinha informado que ontem, 25, apresentaria o espectáculo Mulata, de autoria de Fauller, seu marido. Foi excepcionalmente bom. Como a dança de grande qualidade pode ser simples, intermeada pela a biografia dela em suas próprias palavras. No final ela veio dizer-me que não se tinha esquecido de me trazer o livro com a sua biografia, publicado há pouco mais de um mês. E ofereceu-mo com dedicatória pessoal. Claro que deu mais conversa ali mesmo com ela e o F.. Ontem, de novo, a seguir ao almoço, outra conversa com ela, agora sobre o espectáculo de ontem, sobre a dança na vida, etc.
- O filme que ontem à tarde fui ver e do qual saí antes do fim não chegou para estragar o resto de positivo destes dois dias. Nem sequer a informação que pessoa segura me tinha transmitido de manhã que ontem tinha sido preso um importante traficante de droga nesta região e que o gang tinha anunciado vingar-se a fogo hoje nesta cidade. Limito-me simplesmente a hoje à noite não sair de casa. Isto é o Brasil e coisas do género podem acontecer. That's it.
- PS: Estava eu a ponto de vir colocar estas brevivências no meu bloguinho amistad, quando leio no jornal diário desta cidade O Povo, em título grande de notícia, o uso da palavra “homoafetivo” em vez de “homossexual”. Até que enfim usaram uma palavra que substitua a palavra redutora, enganadora e inadequada “homossexual”. Esta última fora inventada/criada por dois britânicos há cerca de um século atrás e se mantivera, mesmo que nos últimos anos tenha sido acompanhada, sobretudo, pela “gay”. O que há de errado na palavra “homossexual”? Não o designado em si mesmo, mas a restricção que a palavra em si mesma contém. Coloca todo o acento em “sexo” e não no resto que compõe a totalidade do que deveria designar, nomeadamente as componentes afectiva, sentimental, modo de vida, etc. É na verdade enorme avanço.
Pena é que exactamente na página seguinte do mesmo jornal, em título de enormes letras, a palavra “homossexual” lá esteja ainda, quando noticiam a extraordinariamente importante e histórica decisão do Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos estabelecendo em todo o território e Estados desse país o casamento entre pessoas do mesmo sexo como válido e livre, tal como o chamado casamento “heterossexual” já o era. Igualdade e liberdade para todos na América do Norte. Agora só faltará, eventualmente, a alteração progressiva das duas palavras por “homoafetivo” e “heteroafetivo”.
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