“(...) Tudo bem consciente que uma “unidade” de movimento é sempre divisível e infinitamente plástica, consideramos os dois grandes tipos de unidades da gramática semântica da dança: 1) Os movimentos de transição, que acabamos de descrever. Há mil maneiras, para o coreógrafo, de os isolar e de fazer deles movimentos dançados – de Cunningham a Pina Bausch. Pode também proceder-se à maneira de Duchamp, descontextualizando o objecto já feito, retirando-lhe assim a sua finalidade, e inserindo-a num contexto novo (de exposição) que lhe é estranho: o processo correspondente na dança consistiria em elidir de uma sequência narrativa as “figuras” ou formas macroscópicas significativas, deixando a nu os puros movimentos de transição. É o que parecem fazer inúmeros coreógrafos contemporâneos (por exemplo, em Drumming peça de Anne Teresa De Keersmaesker (1998), algumas séries de movimentos parecem provir deste modo de proceder).
Aprendemos os movimentos de transição sobretudo nos animais. Não quando projectamos nos seus movimentos intenções humanas, mas na surpresa perturbante de compreender o incompreensível dos seus movimentos. A marcha pesada, a quatro patas, de um chimpanzé: o andar incrivelmente ligeiro de um elefante; a forma de fazer deslizar os músculos de um felino – mergulhando-nos num espanto sem fim: descobrimos em nós um outro sentido no qual nos introduz o devir-animal. Não foi por acaso que uma Simone Forti, uma das mais importantes coreógrafas do movimento pós-moderno americano, se interessou tanto pelos movimentos animais. (...)” JOSÉ GIL (José Gil, Movimento total – O Corpo e a Dança, Relógio D'Água, Lisboa, 2001)

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