“Henry Koster não é um viajante, caçando anedotas e filmando o pitoresco, nem um naturalista (...) É uma curiosidade ampla, livre, sem compasso, sem barras, nem limites. É uma criatura humana, vivendo humanissima e logicamente. (...) Seu livro foi escrito em meados de 1815 a meados de 1816, (...) Henry Koster, filho de ingleses, nasceu em Portugal. (...)
Mas também voam pássaros, abelhas passam, animais, árvores de porte, madeiras de lei para construção, cobras, remédios, bruxedos, bailes, danças fidalgas com minuetos e rondas indígenas derredor da fogueira, música sacra, música de bailado rico e, noite inteira, o bambolear dos negros ao surdo gemido dos urucungos. Alimentação, indumentária, organização social, aspecto das ruas e das cidades, caminhos e povoações, pretos, brancos, mamelucos, cafusos, curibocas, quilombolas, comerciantes, mulatos, escravos robustos ou senis, padres, donos de engenhos, vaqueiros, palhaços, dançarinos de corda, festas de igreja, Semana Santa, viagens, devaneio, cismas, anedotas, comentários, estatísticas, comércio, política, diplomacia, religião, profecia, tudo apareceu como indispensável aos olhos de Koster. E ficou no livro. Dono de escravos, companheiro de conversas, padrinho de casamento, inimigo do trafego [mantenho esta escrita como está no livro] e manutenção do regime cativo, Koster amou, defendeu e estudou o escravo com precisão e nitidez. (...)
Koster não ridiculariza os hábitos e tradições brasileiras. Nem mesmo auxilia ao nacional falastrão a doença de deprimir o ambiente. (...)
Koster consegue o milagre de não ser monótono, não ser pedante, não ser imponente. Segue pela vida e pelo livro, simples e natural, conversando, informando, pondo uma pedrinha na boca para não ter sede, aplaudindo o “fandangos”, molhando-se no Entrudo, assistindo Semana Santa em Olinda, tomada de hábitos em Igarassu, comendo doces na sacristia de São Pedro dos Clérigos, bebendo remédios da terra, compreendendo tudo e tudo defendendo ou criticando com a autoridade da tolerância. (...)” LUÍS DA CâMARA CASCUDO, mais eminente antropólogo brasileiro de sempre (Henry Koster, Viagens ao Nordeste do Brasil, volume 1 – Tradução, prefácio e comentários de L. Da C. Cascudo, ABC Editora, 12a. Edição, São Paulo-Fortaleza, 2003)

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