“O segundo contingente Pataxó está exactamente no ponto em que o Brasil foi primeiro visto por Pedro Álvares Cabral, na área expandida do atual Parque Nacional de Monte Pascoal, e em outras pequenas áreas nas circunvizinhanças da cidade de Porto Seguro. A aldeia Barra Velha é sua origem histórica mais recente, na beira do mar. Diante da legislação de proteção ambiental, os Pataxó conseguiram o direito a caça e coleta de produtos naturais, em um terço do Parque. Pescam artesanalmente e vendem seu produto nas cidades vizinhas. Durante muitos anos, foram incitados por madeireiros a permitir o corte de árvores nobres, às vezes sob a conivência das autoridades locais. Hoje coletam apenas o suficiente para tornear e esculpir artesanatos de madeira e vender pelo Brasil, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.
De Barra Velha, ainda na década de 1950, diversos grupos migraram para outras áreas de floresta e para um local ao lado de Porto Seguro, onde, nos anos 1990, conseguiram obter o reconhecimento de ocupação tradicional tornando esse local terra indígena com o nome de Coroa Vermelha. A demarcação das demais terras assentadas tem passado por muitas dificuldades em vista da alegação de direitos de propriedade por parte de fazendeiros e de donos de casa de praia.
Os Pataxó-Hahahae e os Pataxó de Porto Seguro fizeram para si, depois de muitas dificuldades e ainda inconclusivamente, um contexto especial do viver indígena em que o tradicional se mescla com o urbano, cujas regras de convivência com a sociedade dominante são inconstantes e circunstanciadas. Porem, vivem à beira-mar.” MÉRCIO PEREIRA GOMES (Mércio Pereira Gomes, Os Índios e o Brasil – Passado, Presente e Futuro, Editorial Contexto, São Paulo, 2012)
COMENTÁRIO: Há muitos anos que me interesso pelo tema dos índios do Brasil, não tivesse corrido nas veias de minha bisavó materna sangue índio brasileiro. Casualmente, porém, passei duas vezes no mesmo dia e aí me detive umas duas horas, em Coroa Vermelha. O contacto foi, no entanto, curto e superficial. Quase diria que nada deu para ficar a saber. Quis o destinos (Deus, deuses ou orixás) que anos mais tarde, estando em longa estadia em Natal (zona de Ponta Negra) aí assisti a um enorme certame que incluía a participação de um grupo de índios. Coincidentemente eu conheci um deles, o Adju, que, por vezes com o pai, durante todo o ano vendia produtos da Amazónia no centro de Natal.
Esse facto terá, eventualmente facilitado o contacto. Ou terá sido a atração mútua entre quem gosta de fotografar e o gosto em ser fotografado? O certo é que durante os vários dias que durou o certame lá estive com eles. A empatia tornou-se evidente. Foram muitas e de muitos as fotos feitas. Ao ponto de no dia de encerramento, o Adju me ter dito que o grupo decidira dedicar-me uma dança ritual deles, executada fora do palco e longe da vista de outro público, só para mim. Gesto bonito, para quem de mim nada recebeu a não ser atenção e muito respeito. No dia anterior tinha eu sido apresentado a um jovem (idade difícil de adivinhar. Interessa isso para alguma coisa?) que me disseram ser um dos chefes de Coroa Vermelha.
O modo como inicialmente me encarou não foi o mais aberto possível. Com a conversa tudo mudou. No final deu-me o endereço dele, incluindo telemóvel, e convidou-me para ir lá passar duas semanas a Coroa Vermelha. Europeu inveterado que sou, pedi-lhe conselho sobre uma pensão ou hotel onde pudesse então ficar hospedado. Resposta dele: Preferes ficar em casa dos brancos, é? Não aceitas o meu convite para ficares em minha casa? É óbvio que, de imediato, com prazer e até honra o aceitei. Só falta da minha parte concretizá-lo.

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