Ontem à noite resolvi fazer uma pausa nas misérias do mundo e nas vigarices das pessoas, que tenho sofrido, e voltar a ver um espectáculo de dança contemporânea do mundialmente famoso NDT.
Habituei-me nos últimos 35 anos a assistir, quando possível, a todas as suas novas coreografias, tanto do NDT1 - grupo principal, como do NDT2 - grupo mais jovem de aspirantes ao NDT1. Sou, portanto do tempo da entrada, de Jiri Kylian para Director Artístico e coreógrafo permanente do NDT, cargo em que permaneceu 25 anos, só o abandonando por expressa e inabalável decisão dele. Lembro-me de uma certa preocupação quando ele entrara para o NDT este ir ficar nas mãos artísticas de um relativamente jovem coreógrafo checo. Jiri passou a ser, para direcção e público da companhia neerlandesa, considerado como indispensável e insubstituível. Ele e o NDT passaram quase a serem sinónimos. Quando o programa incluía uma coreografia dele as salas esgotavam-se, sem ela tal passou a não aconteceu. Ele mesmo passou a ser autêntico neerlandês, aqui continuando a viver. Acedeu a ficar com outras funções importantes no NDT e a passar a ser coreógrafo convidado .
O que se passou a seguir é que, já com novo substituto em funções, o público passou a exigir que o NDT continuasse a dançar coreografias do Kylian. Isto atingiu um tal ponto que este, 4 anos atrás, Kylian proibiu ao NDT de durante 3 anos dançar qualquer das suas dezenas de coreografias. Para dar oportunidade a outros, disse ele. Mas o público neerlandês (holandês, embora oficialmente a Holanda seja somente uma das várias províncias deste país chamado Países-Baixos) não esquece o esquece e vê com prazer a presença habitualíssima dele nas estreias de novas coreografiias no Lucent Theater, em Haia, casa do NDT. e então único teatro/edifício projectado e construído exclusivamente para dança.
Voltemos, no entanto, à razão por que comecei este apontamento: o espectáculo de ontem à noite no Stadsschouwburg de Utrecht.
Subordinado ao título genérico de "Strike Root", compôs- se de 3 coreografias (cada uma entre 30 a 40 minutos) de 3 coreógrafos diferentes.: "Chamber" de Medhi Walerski, "Thin Skin" de Marco Goeck (estreia mundial este ano em Haia) e "Safe as Houses" do duo Sol Léon&Paul Lightfoot. Devo confessar que ia com curiosidade saber se esta última coreografia do duo permanente do NDT me ia desiludir tanto como as anteriores, se bem que ao contrário de outras opiniões, nomeadamente de meu bom conhecido bailarino sul-coreano de companhia de Rotterdam. Enganei-me. Todo o espectáculo foi grandioso. Qualidade, perfeição das 3 coreografias. O dueto de um pouco mais de 10 minutos no final da do duo, por conseguinte do espectáculo, foi magia de dança no seu máximo de qualidade. O público reagiu extasiado. Eu também.
Durante 2 horas e meia vivi alienado dos problemas da realidade da vida. Para isso serve, sobretudo, a Arte.
Recent Comments