"Le Sacre du Printemps não era um bailado em qualquer sentido tradicional da palavra. Não havia um desenvolvimento narrativo fácil nem espaço para expressão individual, nem qualquer ponto de referência teatral convencional que ajudasse a aferir a acção. O bailado funcionava por repetição, acumulação e uma montagem quase cinematográfica: cenas estáticas e imagens justapostas e impulsionadas por uma lógica ritual e musical e não estritamente narratica. Havia danças tribais ruidosas e uma violação estilizada, o rapto cerimonial da donzela escolhida e uma procissão solene encabeçada por um sumo sacerdote de barbas brancas que terminava com uma dança agonizante da morte da rapariga. No final, quando a virgem caía morta no chão e seis homens erguiam o corpo mole por cima das suas cabeças, não havia qualquer efusão catártica de desespero, tristeza ou ira, apenas uma sinistra e fria resignação.
É difícil transmitir hoje a sensação que o radicalismo de Le Sacre du Printemps causou na altura. A distância que separava Nijinsky de Pepita e Fokine era imensa; mesmo L'après-midi d'un faune era comparativamente convencional. (...)" JENNIFER HOMANS (Jennifer Homans, Os Anjos de Apolo - Uma História do Ballet, edições 70, Lisboa, 2012)

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