Há datas ou períodos do ano em que, por tradição, na maioria dos casos derivada de práticas religiosas, se espera das pessoa que ajam ou sintam diferentemente dos do resto do ano.
Sem entrar em detalhes, que nada contribuiriam para a finalidade da mensagem que aqui quero deixar, uma dessa é, obviamente, o Natal. Diz-se ser o período da festa da família. Às tradições antigas, juntaram-se, desde há muito as tradições comerciais: Comprar, comprar, comprar prendas, no que as as pessoas são autenticamente condicionadas por publicidades maciças pelo comércio. Vender, vender, vender o máximo é o importante para este.
Por outro lado, é a altura em que se visitam familiares e, se trocam as tradicionais de votos de Bom Natal (outrora acrescentavam-lhe também o qualificativo Santo).Antigamente através de cartões para isso já impressos, hoje em dia cada vez mais através da internet. É mais prático e fácil. Pode-se até escrever um texto que se envia igualzinho para uma série de pessoas que se escolhem na lista de endereços electrónicos conhecidos. No sentido de aumentar o sentido prático, cada vez mais se acrescenta aos votos de Bom Natal, os de um próspero Novo Ano. Bem vistas as coisas, a diferença entre as duas datas é somente de seis dias. (O que sempre esquecem, se quizessem seguir à risca as tradições cristãs, é que deveriam fazer o mesmo quanto ao Dia de Reis, mas não o fazem).
Não é meu hábito aqui entrar em confidências pessoais, mas por estar relacionado directamente com este assunto, deste vez abro uma excepção.
Há uns anos, por razões específicas, que não interessam para aqui, tive que passar um Natal na cidade brasileira de Natal (que coincidência de nomes!). Racional que sou, se bem que com conhecida forte componente humanista e sentimental, pensava que seria algo do mais simples do mundo. Não o foi. Foi, precisamente o contrário. Sozinho num hotel, senti o peso da tradição do dia. Tive saudade dos tempos em que em Oliveira passava o Natal em Família, quase sempre com os meus pais, o meu irmão, os meus primos que viviam de Gaia (acompanhados de filhos e netos) e uma irmã do meu Pai. Apesar de sempre considerar uma sensaboria a ideia de para seguir uma tradição, me ter que deslocar para lá, acrescida das eternas discussões/desentendimentos entre essa irmã do meu Pai (sempre apoiada por ele) e a nossa Mãe (apoiada pelo meu irmão e por mim) quanto à hora de início início da ceia natalícia e sobre uma sobremesa que essa tia sempre trazia com ela e a que chamava de "filhoses" (Aquilo não sabia a nada). Minha Mãe, não conseguia esconder o que pensava, assim como eu. No entanto, seguindo conselhos desta, lá fazíamos o sacrifício de comer uma, para não provocar desentendimento com o irmão da nossa tia...
Tudo isto fazia parte da tradição do Natal. Do tal período que, durante anos, eu via aproximar-se a contragosto.
No entanto, naquele ano, lá na cidade nordestina de Natal, nesse Natal senti-me profundamente sozinho e com saudades dos natais outrora passados em Oliveira!
Aqui está, mesmo para pessoa racionalíssima como eu, a força da tradição desta época, sobretudo daquela véspera de Natal. Consegue, pelo menos no meu caso, ser superior a todas as nossas ideias e convicções.
Apesar de, desde há muitíssimo, ser de opinião convicta de que não se deveria reservar para um dia ou época, o nosso espírito de Família, a nossa solidariedade com os que, doentes, solitários, vítimas por que motivo seja, sofrem amarguras da existência, mas sim extender a cada dia de cada ano esses mesmos pensamentos e sentimentos de solidariedade para com eles. Na tradição cristã verdadeira, isso dever-se-ia estender aos nossos inimigos e mesmo àqueles que fazem mal (isto baseado nas palavras de Jesus Cristo (citadas aqui de cor):"Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem!", mas isso vai além da minha capacidade humana).
Apesar disso tudo, aquela véspera de Natal passada no e em Natal, marcou-me de modo significativamente doloroso.
Este Natal, porém, por razões práticas inevitáveis e mais do que compreensíveis, passarei, pela primeira vez em toda a minha vida, esta época no belíssimo, justo e humano país chamado oficialmente de Países-Baixos, vulgo Holanda.
Não estarei só. Amigos e bons conhecidos acompanhar-me-ão. Não terei junto a mim ninguém da minha Família genética. Ela, porém, estará no meu pensamento, sobretudo, se me permito salientar, entre todas as outras, primus inter pares, uma pessoa que para mim, todos os dias do ano, é o símbolo indelével da mesma: a minha querida Mãe.
Sem esquecer, obviamente aquela a que dou o nome de família da amizade, cada membro dela, segundo o seu mérito de bondade, honestidade, justiça e sinceridade, com o seu grau de intensidade.
Para todos eles, mesmo aqueles que deveriam fazer por pertencer a um dos dois tipos de família, desejo do coração um Bom Natal e um Ano de 2015 cheio do que queiram e mereçam.

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