O assunto da depressão em si mesma é muito difícil de abordar em tão pequeno espaço, como deste texto. Vou tentar ao máximo comprimi-lo de forma clara. Há as ideias, opiniões e confusões sobre o que esta palavra significa e representa na realidade concreta.
O próprio Robin Williams desde há muitos anos falava abertamente do facto de sofrer de três males: drogas, alcoolismo e depressão. Naturalmente que a conjugação das 3 coisas é explosiva. Tudo tentou para se livrar delas. Segundo a viúva, na altura da morte estava limpo das duas primeiras. Limitar-me-ei aqui somente à depressão.
1) A primeira vez que há muito, muitos tempos atrás, um amigo, médico, me explicou a maneira prática de uma pessoa detetar a diferença entre tristeza e depressão é a seguinte: Estar triste, mesmo ser triste, é algo que pertence à vida. Pode não ser depressão. Quando, porém, passadas, pelo menos, três semanas seguidas essa pessoa deixa acumular uma série imensa de coisas para resolver, facílimas de o fazer, e não consegue ter força anímica, disposição, para as resolver, isto pode ser um indício forte estar em presença de depressão. O caminho mais certo é procurar ajuda, por exemplo, junto do médico habitual que, ou receita medicamento (O único então conhecido era o recentíssimo prozac), ou, se julgar ser necessário, encaminhar a pessoa para ajuda especializada (psicólogo, psiquiatra ou psicoterapêuta).
2) Há neste momento milhões e milhões de pessoas que sofrem de depressão. Assim como há um estigma terrível da sociedade para com tudo o que tenha a ver com os tais 3 "psis" que nomeei atrás, o que faz com que a própria pessoa acaba por não saber ou não aceitar que sofre de depressão, ao mesmo tempo que o tabu social ainda mais complica a situação e impede o tratamento/ajuda.
3) Então há ajuda/tratamento que resultam? Há. Dependendo, naturalmente, do tipo de depressão que se trata e da capacidade de um especialista acertar com o tratamento adequado ao caso e de o paciente aceitar segui-lo.
4) Então quais são os tais tipos de depressão que há ? Não vou aqui apresentar uma listagem deles, pois a mesma depende de quem a faz (Não sou especialista do assunto), da evolução e descobertas da investigação científica médica, e de pontos de vista. Vou aqui, no entanto, dar dois exemplos:
Há uma depressão que se chama de leve (na listagem oficial da Organização Mundial de Saúde chamada de "mild depression") e no topo da escala a depressão forte/fortíssima. Para complicar mais a coisa, dois exemplos: Dentro das depressões chamadas de leves, há, por exemplo, uma chamada de ciclotimia. Habitualmente tem a característica de a terem pessoas com enorme criatividade, como por exemplo, entre outros, Picasso. Todas as características desta, por exemplo, têm evoluídos muito nos últimos anos e não são taxativas a todas as pessoas sofrendo da mesma. Pessoalmente conheço bem uma pessoa a quem uma especialista, duplamente psi, atribui ciclotimia, mas de criativa não tem nada. E por aí adiante.
5) Para dar uma ideia da dificuldade de catalogar "males de humores", aos quais de forma geral pertence a depressão, aparece nos últimos anos incluída num grupo mais amplo que inclui as depressões fortes/muito fortes e mesmo a bipolaridade. Escreve-se até que um bipolar seria a mesma coisa que um maniacodepressivo. Conhecia há uns 7 anos atrás no Brasil um coreógrafo-bailarino a quem um dia, vendo-o muito triste (tinha autorização de fotografar - meu maior hóbby - todos os elementos daquela companhia de dança durante os ensaios) perguntei-lhe: "Não percebo, um dia és a pessoa mais alegre que conheço, outra a expressão máxima da tristeza." (Naturalmente que um fotógrafo atento repara em todas as pequenas nuances da cara e corpo de uma pessoa que está a fotografar). Reposta imediata dele: "António, eu sou bipolar." Por respeito a ele, não lhe perguntei mais nada, continuando sempre a fotografá-lo, como a todos os outros. Nunca me impediu de o fazer. Eu sabia, de ler muitos livros, o que era bipolaridade.
6) Esta questão da bipolaridade coloca, para além de outros, um problema em catalogações: Pertence ela às doenças da Neuropatia ou da Psicopatia? É questão importante? Parece-me que sim. Uma outra pessoa minha amiga foi diagnosticada (levou mais de um ano a médicos e especialistas descobrirem isso, mas o porquê disso é outro assunto aparte) como sofrendo de depressão. Procurou o que há na Holanda de melhor especialista e clínica especializada para isso. Se bem me lembro, existiria até na Holanda uma clínica que só aceitava doentes com males pertencentes às neuropatias e não às psicopatias
Ora, assim sendo, algo que há dias me disseram (A bipolaridade tem características de depressão e de psicopatia), fez levantar dentro de mim a questão: Naquela clínica eles tratam pessoas sofrendo de bipolaridade? Ainda esta semana vi na tv holandesa excelente e seriíssimo programa sobre doenças psíquicas e um dos exemplos apresentados dando testemunho pessoal de bipolaridade, tinha todos os sintomas de fortíssima e claríssima psicose. Segundo a informação que obtive, 'resolvedora' de contradições, a bipolaridade seria um tipo de depressão extrema com fortíssima e dominadora componente psicopática.
Claro está que não ocuparei mais tempo em tentar saber isso. O que entretanto for lendo, vendo, ouvindo será um acrescento, actualização de descobertas científicas médicas. Se algo de interessante aprender sobre isto, aqui escreverei. É só para exemplificar, uma vez mais a dificuldade em catalogar com precisão (gosto de ser o mais possível preciso) os vários tipos de depressão.
Que a depressão, de que sofria, por exemplo, Robin Williams, é um mal ('transtorno de humores', como lhe chamam) afectando milhões e milhões de pessoas, é um facto incontestável, real e impossível de ignorar, desprezar e discriminar.
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