Balé/dança tem algo em comum com desporto de topo, nomeadamente futebol. A prática do mesmo tem "limite de validade". Por melhor que o praticante tenha sido, com o passar dos anos, o físico deixa de permitir o exercício da profissão a nível aceitável. Não se pode tomar como exemplo casos excepcionais, que são excepções à regra, por exemplo Dame Fonteyn e um ou outro jogador, sobretudo guarda-redes. Muitas vezes, quando tomam consciência disso, escolhem tornar-se coreógrafos ou treinadores.
Há um exemplo clarissimo da luta contra o aceitar dessa diminuição de capacidades físicas. Refiro-me a Nureyev. Não sei se o livro de Rudi van Dantzig está traduzido em outros idiomas, mas em Noerejev, het spoor van een komeet pode-se ler a luta tenaz e teimosa de Nureyev em provar que ainda conseguia dançar ao mais alto nível (o nível do HNB I), apesar da idade. O coreógrafo era van Dantzig.
O Balé Nacional da Holanda (HNB), há anos resolveu o problema, criando o HNB III, com coreografias escritas propositadamente para bailarinos mais velhos (no HNB II dançam aqueles que, embora com enorme qualidade, ainda não têm idade ou experiência para atingirem o grupo principal, HNB I).
Há anos, por umas duas vezes, fui assistir a espectáculos do HNB III (para bailarinos entre os 40 e os 60 ans, quase sempre antigos bailarinos do HNTI) e, com toda a franqueza, o que vi não me levou a voltar a fazê-lo. Surpreendentemente, hoje, uma hora atrás, fui surpreendido na tv pelo contrário: Uma coreografia de Hans van Manen, "The old man and me", dançada por 2 bailarinos do HNB III. Excelente.

Comments