Como são as coisas! Sempre que leio o nome, acarinhado por muitos, de D. B. vem-me uma má sensação. E nunca o conheci pessoalmente. Até houve a coincidência de uma foto dele e outra minha terem sido, há muitos anos, publicadas numa semana a seguir à outra num conhecidíssimo e já "falecido" semanário, O Independente (dirigido por Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso) por gosto e decisão de Sarah Adamopoulos. Anos depois passou a haver frequentíssimas pequenas estadias minhas em casa do meu amigo Miguel Nava, em Bruxelas, o Miguel "impunha-me" que sempre que fosse de comboio entre os Países-Baixos e Paris (o que acontecia com regularidade) ficasse lá em casa dele, pelo menos umas 24 horas para pormos a nossa conversa em dia. E que excelente e inteligente conversador era ele! Numa dessas vezes contou-me uma mágoa grande que tinha perante uma pessoa que considerava (ou tinha considerado) amigo e que o tinha desiludido.
A razão disso resume-se em poucas linhas . Miguel Nava tinha um excelente relacionamento de amizade e admiração com Paul Bowles, conhecido escritor americano residente em Tânger. Ciente disso, D. B. insistiu junto do Miguel para ele conseguir que Paul Bowles o recebesse de modo a poder conhecê-o e fotografá-lo. Este acedeu a autorizar isso. No final, como recordação do encontro terá oferecido, a título exclusivamente pessoal, uma recordação dessa conversa. Tempos mais tarde Miguel Nava recebeu um telefonema de um Paul Bowles furioso por o Miguel ter sido responsável por ele ter acedido a conhecer a pessoa em questão. Razão da fúria: A mesma pessoa tinha publicado num livro esses dois pequenos textos (explicitando a autoria dos mesmos) sem autorização de Paul Bowles. Ou seja, tinha-se "aproveitado" de um gesto de simpatia pessoal e traído o mesmo, publicando o que nunca era para ser publicado. Miguel ficou duplamente triste. Por um amigo que tinha traído a confiança de um outro amigo a quem ele tinha conseguido abrir as portas para um encontro. O tempo passou, mas não a mágoa e o esquecimento do acontecido. Até porque o até então excelente relacionamento de Paul Bowles para com o Miguel tinha, naturalmente e sem culpa de ambos, sido afectado até certo ponto pelo acto do outro.
Os anos passaram desde que o meu saudoso amigo Miguel me contou isto, mas tem sempre afectado, interferido, negativamente, mesmo que eu o não queira, no meu visionamento do que D. B. faz. E talvez não devesse.

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