Ler, visionar ou ouvir leva, muitas vezes, a fazer associações com coisas já vistas, lidas ou vivenciadas. Tenho nessas ocasiões a vontade de sobre isso escrever . São, no entanto, tantas que, apoiado pela minha proverbial preguiça em escrever (totalmente contrária à de criar ou estar quase permanentemente activo) passo à frente deixando tudo para o dia de são nunca à tarde. Há mês em meio (segundo creio, pois sou péssimo em decorar datas) comprei 3 livros através da internet. Um deles é uma colectânea de mais de mil páginas de textos de literatura neerlandesa de viagens. De tão grande, ficou calmamente a repousar na espectativa (nem sempre tornada realidade) de um dia ser lido. Ontem escolhi um relato escrito por Adriaan van Dis (escritor actual, mais conhecido pela sua excelente série, de há duas décadas atrás, de entrevistas a pessoas culturalmente com valor e interesse). Só já o título activou a memória repousada.
É que há anos passei por Ressano Garcia, a caminho da Suazilândia. Uma das vezes sem nada de especial para contar no que se refere à povoação moçambicana. A outra sim. Dois meus recentes conhecidos tinham-me desafiado a irmos passar um fim-de-semana à Suazilândia no carro de um deles. Um terceiro, jovem africano, começou a levantar toda a espécie de obstáculos. Acabámos por convencê-lo. A custo. Durante a viagem percebemos a razão em toda a sua extensão. Quando começámos a nos aproximar de Ressano Gracia a estrada, durante us bons dez quilómetros estava ladeada de carros e camionetas queimadas, resultado de ataques da Renamo a quem circulava por aqueles lados. O nosso amigo cabo-verdiano, esse permanecia encolhidamente agachado no pequeno espaço do chão traseiro do carro. Com medo terrível de levar com uma bala. Expliquei-lhe que se algo acontecesse seria exactamente naquela direcção que as balas trespassariam a carroceria do carro. Nada, porém, o tirou daquela posição, até chegarmos à povoação de que Adriaan van Dis dá uma imagem informada por locais. De total de destruição do que os portugueses lá haviam construído. Como ele, por exemplo, escreve: do hospital, restavam 4 paredes. Queimadas. Vazias.
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