De repente notei que o laptop estava a funcionar com a bateria. Mexi e remexi com cabos, experimenei outros dependentes de corrente eléctrica, verifiquei fusíveis e a conclusão foi simples: A corrente eléctrica fora-se. Um tempão depois batem à porta. Vejo duas pessoas arfantes que me vinham, como outras todos os dias, ajudar no duche (normalmente uma, deta vez duas: um estagiário praticaria). Foram eles que me disseram que metade da cidade estava sem corrente. Algo que aqui nunca me acontecera em tantos e tantos anos. É que nem tv, nem sequer café posso fazer. Para não falar no que se estará passando no 'freezer'. Estava explicado o arfar referido. Para 'consolo' brincalhão disseram-me que daqui iriam a um apartamento num 11º andar... É que a corrente só passadas muitas horas regressaria. Uma coisa tão simples e que modifica o nosso 'ritual' diário. Penso naqueles que há dias e dias estão sem ponta de corrente e de água na Líbia.
*
Ao longo da vida sempre me juntei de livros. À escassa meia centena caseira inicial fui-me vestindo de livros. São parte de mim mesmo. Hoje são milhares, esperando pacientemente em locais bem longe uns dos outros pelo seu uso. Acontece que aqui não é um desses locais. Assim, vejo-me limitado a só ir lendo o que me atrai irrestivelmente nas livrarias. Já não uma compra por hábito, mas por vontade absorventemente específica de ler. Lógico é que, por isso mesmo, o idioma se restringe praticamente ao neerlandês e ao inglês. Faltam-me os outros. Falta-me o panorama, a diversidade que me abrem. Claro que sei que nesta cidade existe uma biblioteca universitária com mais de sessenta mil livros em português. Durante anos conheci-a diariamente. No entanto, para mim, ler um livro de outrem nada tem a ver como um livro nosso. é radicalmente diferente. Não se pode sublinhar, não se pode anotar. Nada a fazer, a não ser concentrar-me no que aqui posso dispor e ler a meu modo.

Comments