Mais um dia em condições fora do normal. "Aprisionado" pelas circunstâncias impostas pela minha perna, tento acomodar-me (que outra solução?!) à situação, tudo fazendo para que de agora a um meio ano, ou mais, possa voltar à vida o mais próximo possível do habitual. Se tudo correr bem e não parecer mais nenhum percalço. Sei que pode acontecer. Um deles já surgiu. Esperemos que fique por aí. Tenho a consciência, que tento atenuar, que nem tudo voltará a ser o mesmo. Contudo, a situação anterior tinha-se tornado absolutamente insustentável, apesar dos muitos medicamentos contra as dores e a minha teimosia brava em afastar a necessidade de me operarem.
Há cerca de vinte anos atrás meu Pai tinha sido operado ao mesmo. Por um dos melhores cirurgiões do país, escolhido a dedo por um grande amigo nosso, também cirurgião e ortopedista. Recordo ouvir o meu Pai na sua cama de hospital, dias após a cirurgia, dizer ao cirurgião para ele marcar de imediato a mesma operação à outra perna. Este, experiente, afastou precipitações prospectivas. Infelizmente complicação raríssima (penso ter ouvido falar, se me não engano, em um caso por milhão de operações) ocorreu. Descobri que mesmo alguns ortopedistas aqui a desconhecem (o que muito me surpreende). Ora o nome dessa raríssima consequência consta da informação escrita, previamente entregue pela clínica/hospital aceita ser operado. Chama-se, em neerlandês, "verboting". Perante tudo o que presenciei há vinte anos atrás prometi a mim mesmo nunca deixar submeter-me a esta cirurgia. No entanto, os anos passaram e a vida tornou-se um verdadeiro inferno de dores, 24 horas por dia, impossibilitando-me a vida activíssima que sempre me habituara a fazer. Após o veredicto claro de dois cirurgiões de dois hospitais diferentes, excelentes, acabei por ceder ao inevitável. O resto já aqui escrevi.
(Não estranhem o facto de nestes dias este assunto dominar estes meus textos. É que isto domina os 24 horas de cada dia, até por me encontrar vivendo durante estas semanas em instituição especializada em recuperação).
O mundo lá fora continua a rodar. Líbios, sírios, iemanistas, etc.continuam a ser assassinados. Milhões de refugiados vivem em condições desumanas. O sofrimento no mundo não pára. O prazer e a alegria de outros também não. Justiça e injustiça contrapoem-se. O mundo gira lá fora. Através das janelas da televisão, da imprensa excrita e de quem me rodeia, assisto ao espectáculo do mesmo.
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E também há o mundo aqui dentro. Em instalações de qualidade com muitos espaços e todas os equipamentos para uma pessoa se sentir quase como em casa. Quase porque casa é casa e aqui é menos e mais. Mais, porque basta carregar num botãozinho que se traz ao dependurado ao pescoço e dentro de 2 a 3 minutos está uma profissional no quarto a saber o que se passa e a prestar a ajuda necessária. 24 horas por dia, sete dias por semana. Isto é, sem dúvida, qualidade. São 160 funcionários para 150 residentes... Com o tempo começa-se a conhecer as caras, pouco a pouco, tantas elas são.
Uma delas, porém, manteve-se durante uma semana desconhecida. Só a voz ouvia quando de manhã entrava no quarto e me dizia que trazia o pequeno almoço. A posição da minha cama, de costas para o resto do quarto, fazia que só pela repetição diária da voz reconhecer ser sempre a mesma pessoa. Até que ontem veio também durante o dia oferecendo-me café. Um jovem de estatura atlética, que , a pergunta minha, me disse ter praticado futebol e actualmente, com 19 anos, praticar diariamente kick-box-tailandês e musculação. Neerlandês nascido nos Países-Baixos de pais turcos da região de Ankara. Uma enfermeira, de origem africana entrou e, de imediato, se referiu ao aspecto físico de Zulfikar atribuindo-lhe o adjectivo de muito bonito. Penso que qualquer pessoa do mundo com dois olhos na cara concordará inteiramente com ela. O interessante é que, logo de seguida, muito provavelmente devido a comparação (contrastante), não expressa, com ela mesma, começou a desfazer do físico dele (até parece que tinha mudado de olhos...) dizendo que os negros tinham músculos mais desenvolvidos e que, etc. Não resisti a, de imediato, virando-me para Zulfikar, dizer-lhe provocadoramente que ela teria ciúmes do corpo dele. Não sei se ela gostou, mas mereceu a minha intervenção. Ele abriu um sorriso, divertido e satisfeito. Não tinha passado uma hora e ele veio oferecer-me um café. E depois um sumo de laranja. A vida continua.

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