Fez hoje precisamente duas semanas que me cortaram, serraram, esburacaram, descarnaram, desprenderam, furaram, rasparam, implantaram metal e plástico, e, por fim, agrafaram uma perna parte de mim. Quem o fez foi especificamente escolhida por mim. Com inteira confiança. Não me referirei às dores posteriormente sofridas. Mais do que muitas, já que a morfina profusamente dada teimou sucessivamente em nenhum efeito fazer. Só uma injecção de algo que não conheço, vinte e quatro horas depois, resultado de uma reunião específica entre especialistas de combate à dor, resultou. Não me referirei a muita outra coisa. Tudo isso faz parte da necessidade absoluta de pôr fim a tempos intermináveis de sofrimento.
Esse tal sofrimento especifico anterior, que aos 38 anos de idade me tirou inexoravelmente e para sempre o prazer fanático de jogar ténis, esse desapareceu. Fisioterapia especializada e os cuidados excepcionais de uma instituição de recuperação onde permaneço irão fazendo o resto. Entre esse resto está o reaprender a caminhar conscientemente. Interessante pensar que essa criança de há muito tinha demorado dois anos inteiros para então o conseguir fazer pela primeira vez.
Está programado que esta fase de recuparação, como sempre, demore seis meses. Se tudo correr a desejo.
Como a vida é feita de imprevistos indesejáveis, há dias que foi descoberta uma trombose, cujas consequências ainda me são pouco claras. Ultrapassarão, isso me foi dito no hospital onde de urgente fui tratado de forma competentíssima por vários especialistas, em muito os atrás referidos seis meses de recuperação da intrusão cirúrgica. Isto tudo em alguém que nunca soubera estar parado, vagamundeando constantemente no mundo.
A televisão mostra-me imagens de vítimas de guerras e outras dores. Certamente com maior sofrimento e condições bem piores. Nada disso me compensa. O meu sofrimento torna-me, isso sim, ainda mais consciente do sofrimento dos outros. Ainda mais próximo deles.

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