“Isadora colocava-se fora da história recente da dança no Ocidente e aspirava a tempos recuados em que a dança não era espectáculo, não era uma arte autónomo: “É à Grécia que é preciso ligar-se, pois toda a nossa dança vem da Grécia. […] Como dar hoje à dança o seu lugar? Dando-lhe o coro. É preciso dar o coro trágico à dança e a dança às outras artes. O coro da tragédia é o verdadeiro lugar da dança. É aí que ela deve estar, no meio da tragédia e das outras artes. O resto é decadência.” Este apelo à tragédia grega era, evidentemente, herdado de Nietsche, mas poderia apresentar-se também como uma resposta à publicação em França de estudos mais ou menos eruditos sobre a dança grega, que tentavam fazer da dança grega (da qual se sabe, afinal, bem pouco) um ponto de referência para a edificação estética dos cultores do Terpsicore. Como resposta, chegou a dizer-se a Isadora que se existia um herdeiro directo da dança grega, esse herdeiro era o Bailado!”
JOSÉ SAPORTES
(José Sasportes, Pensar a Dança – a reflexão estética de Mallarmé a Cocteau, 2ª edição, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 2006)

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