“Numa
ou outra noite, quando já não conseguia ouvir os mil ruídos da
mata, a colarem-se pegajosos à pele, quando já não tinha mais
lágrimas para correr, quando já não tinha sequer saudades de tanto
ter saudades, quando por momentos se assemelhava aos pretos velhos
estáticos, de cócoras a olharem o nada, quando se pressentia a
segundos de enlouquecer, quando já não se tinha mais perguntas nem
respostas, quando ficava apenas sentado no chão, sem pensar em nada,
sem pensar em pensar, acompanhava os soldados e trazia também uma
rapariga cá para fora, fazendo por não reparar nos seus olhos só
na direcção do chão, afastava-se um pouco a levá-la pelo braço,
para onde conseguisse já não adivinhar os velhos de cócoras, à
espera, baixava as calças, deitava-a de costas, ela tirava então os
olhos do chão para olhar o céu, e investia como os animais que
ouvia ao fundo, afastava-lhe as pernas, fazia um movimento, fazia
outro movimento, fazia três movimentos, quatro movimentos, cinco,
seis, sete, oito, até sentir um estertor, refolegar, e permanecer
por segundos imóvel, a arfar com força na orelha dela.
Levantava-se,
levantava-a. Ela voltava a olhar o chão, já não lhe agarrava o
braço, até regressar para junto dos outros, sentar-se no chão, sem
pensar em nada, sem querer pensar em nada. Nem sexo nem violência,
nem vontade de matar, nem vontades de ternura. Apenas uma
respiração de bicho, como os animais que ouvia ao fundo, dentro da
noite suada.”
RODRIGO
GUEDES DE CARVALHO
(Rodrigo
Guedes de Carvalho, A Casa Quieta, Publicações
Dom Quixote, Alfragide, 2009, [2005])
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