“Reparem que há alguma coisa escrita no cimo do quadro. Está em flamengo e diz: ‘O melhor que consigo’. Ao fundo está escrito ‘Johannes van Eyck me fecit’, que em latim quer dizer: ‘Jan van Eyck fez-me.’ Van Eyck está a exibir-se através da sua humildade, dizendo ao observador: ‘Isto é o melhor que sei fazer’, sabendo muito bem que o que tinha feito era incomparável. O que tornou Van Eyck tão magnífico foi a sua precisão, e esta foi conseguida através do uso de tintas a óleo. A têmpera permitia muito poucas sobreposições, e por isso as cores parecem planas. Os quadros a óleo têm uma transparência que permite a acumulação de camada sobre camada, sobrepostas e fundidas umas nas outras. Também eram utilizados pincéis minúsculos, para permitir pormenores minuciosos. Mas a sobreposição das tintas é que é o segredo. Por que acham que a Mona Lisa tem um sorriso tão enigmático? Porque Leonardo podia pintar uma camada sem sorriso, uma camada com um leve sorriso, outro mais acentuado, uma com o sobrolho franzido, infinitamente, até obter algo perfeitamente subtil e sugestivo de todas as camadas que estão por baixo. Não existe nenhum mistério.”
NOAH CHARNEY
(Noah Charney, O Ladrão de Arte, 2ª edição, Livraria Civilização Editora, Porto, 2008)

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