Como era de esperar a maioria das respostas publicadas no Sapo (vide meu “post” anterior !) expressam bem a situação cada vez mais egocêntrica e egoísta do mundo.
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Os anos 60 e início dos 70, com epicentro na Europa, depois de Maio de 68, foram anos solidariedade. A partir dos anos 80 notou-se uma viragem acentuada para o “eu” em detrimento dos “outros”, ou mesmo do “nós”. Tem sido algo que me coloca muitas vezes em incompreensão perante a visão do mundo e as prioridades inter-pessoais. Mesmo pessoas que se dizem e se pensam solidárias, não o são na verdade. Naturalmente que o “eu” deve ser o ponto de partida, já que sem o eu, nada somos. Mas não o ponto de chegada,
Nem sequer o caminho.
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Há semanas pessoa amiga ficou admirada por muitas vezes eu colocar a circunstância de um amigo, quando isso é verdadeiramente necessário e justificado, à frente da minha própria circunstância. Por sofrer com o sofrimento de outro. Conhecido ou desconhecido. Do Ceará ou da Geórgia. Do Dafur ou da Birmânia.
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É que solidariedade é muito mais do que “dar”. É sobretudo “dar-se”. É sentir. Sentir-se o outro como nós mesmos. Solidariedade não é aceder a pedidos e pedinchices habituais de pessoas que, por hábito, preguiça ou oportunismo se querem aproveitar dos nossos sentimentos. Solidariedade é fazer a escolha entre o que é verdadeiramente necessário para o outro, não simplesmente pegar na carteira e dar umas moedas ou uma notas bancárias, um objecto ou mais, perdoar uma dívida de alguém que não cumpriu o prometido, não por não poder, mas por egoisticamente se ter comportado. Solidariedade é tentar colocarmo-nos na circunstância do outro e, a partir daí, agir em conformidade com a nossa consciência. Solidariedade é passar uma noite em vigília, preocupado com o estado de espírito ou de saúde de um amigo ou conhecido.
Solidariedade é sentir a dor do outro e actuar em conformidade, para lá do nosso egoísmo, prazer, ou conforto. E isto falta hoje em dia cada vez mais. E quem ainda tem este espírito, muitas vezes é olhado, como bicho bizarro.
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Solidariedade também pode ser dizer não. Solidariedade pode também recusar-se o que levianamente ou por hábito é solicitado. Na vida comum são enormes os casos. Nem vale a pena nomeá-los Tão somente, quase que humildemente à maneira de Konrad Lorenz, um pequeno episódio passado ontem à tarde. O meu grande amigo Ruud chamou-me a atenção para um casal de idosos que davam comida a um grupo de patos. Segundo ele e apesar do pedido escrito público a direcção do condomínio onde vivem para não darem de comer aos patos, pois isso não seria benéfico para eles, já que a comida existente no canal onde nadam e em cujas bermas vivem às centenas é de facto mais do suficiente para todos eles. Comida extra é em demasia , prejudicial e cria hábitos de preguiça. Hábitos de nada fazerem para a procurarem o que está lá. Coincidentemente, mal nos avistaram na outra margem, depois de terem comido o que o casal lhes dera, lançaram-se à água e em grande velocidade nadaram em nossa direcção, pensando que iríamos cometer o mesmo erro daquele idosos bem intencionados. Rapidamente perceberam que os nossos gestos não iam na “cantiga” deles e passaram a nadar calmamente e a comer da água cheia de planctom e outras iguarias.
Tal como no caso dos patos, solidariedade é saber escolher entre quem oportunistica ou preguiçosamente solicita e quem na verdade precisa mesmo e muito de nós. Humanamente.
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Como se fossemos nós mesmos.
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