“Sonata para homem”
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“Um pequeno grupo de músicos está a experimentar a informática como forma de revitalizar a arte.”
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“ Paul Henry Smith, maestro que estudou com Leonard Bernstein, tem esperanças de realizar um espetáculo ambicioso no ano que vem: dirigir três sinfonias de Beethoven,uma após outra, num concerto ao vivo. “É a fazer sinfonias de Beethoven que se consegue provar ser capaz”,afirma.
Mas a prova de Smith vai ter a ajuda de uma batuta informatizada. Vai utilizá-la para dirigir uma “orquestra” sem músicos, produto de um programa de computador desenhado por um ex-violoncelista da Filarmónica de Viena que compreende mais de um milhão de notas interpretadas pelos melhores músicos.
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Entre os problemas que o mundo da música clássica actualmente enfrenta, desde o declínio da assistência aos cortes de orçamento, nenhum mobilizou mais os músicos que o aparecimento de computadores que podem substituir os intérpretes. Com resultados variados, os músicos têm lutado para evitar que as máquinas entrem nos teatros, bailados e salas de ópera. Agora, uma nova aliança de regentes, músicos e engenheiros adoptou uma postura contrária à da maioria: aceitar a tecnologia é a única esperança para se manter a vitalidade e a essa música soa suficientemente bem para que seja escutada fora dos circuitos a que está normalmente associada.
Tudo isto é possível graças a um software que permite escolher notas de um arquivo gigantesco de sons digitais, misturá-los e convertê-los numa sinfonia completa. Depois podem juntar-se-lhes também texturas e matizes.
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Até para alguns peritos é difícil notarem diferença. Pedimos a David Liptak, decano do departamento de composição da Escola de Música Eastman, em Rochester, no Estado americano de Nova Iorque, que ouvisse uma passagem de 30 segundos de uma sinfonia de Beethoven criada num computador, bem como três versões de orquestras gravadas ao vivo. Na sua primeira tentativa, Liptak enganou- se na escolha da versão informatizada. Mas diz que notou a diferença quando ouviu a peça durante mais tempo.
Para a sua apresentação do próximo ano, Smith diz que poderia utilizar o controlo do Nintendo Wii como batuta. As suas gravações não estão completamente terminadas. A ideia é que quando estiver em palco possa interactuar com a música, modulada tempo e emoção.
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O processo de digitalização começa com a descarga de uma versão informatizada da peça, neste caso a Sétima Sinfonia de Beethoven, que se encontra disponível gratuitamente na internet e soa quase como um toque de telemóvel. Utilizando um rato, Smith selecciona um intervalo de cinco segundos da parte correspondente à viola, que repete continuamente. Com outro clique, abre um arquivo de sons, onde pode escolher dezenas de inflexões diferentes para cada nota. Depois de seleccionar um, o som descarregado é substituído por uma interpretação realista da viola. Smith tem que repetir este trabalho com cada uma das 18 partes musicais da sinfonia, as quais são interpretadas por até 70 músicos. Para conseguir estes cinco segundos de música digital, Smith investiu cinco minutos.
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Alguns maestros, como Keith Lockhart, da Orquestra Boston Pops e da Sinfónica do Utah, ofereceram-se para usar um “casaco” - na verdade, um blusão de ciclista equipado com uma dúzia de sensores - para registar todos os movimentos do regente e transferi-los para um software que permite que a batuta digital dirija os computadores. No entanto, mantem ainda reservas relativamente a esta tecnologia. “o que faz com que uma orquestra seja extraordinária não é somente a interpretação criativa da composição, mas sim ver a interacção entre os músicos e o maestro”,afirma. “Isso é subtil, mas uma vez que começamos a removê-lo de cena,é quando começamos a esquecer que existia”.
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No ano passado, Lockhart vestiu o “casaco” para um espectàculo com a abertura de As bodas de Figaro, de Mozart, e foram colocados sensores também em cinco dos 75 músicos que ele estava a dirigir, bem como em 15 pessoas da audiência. O objectivo era ver se os movimentos de Lockhart coincidiam com os dos músicos, e como os picos emocionais da música os afectavam fisicamente.
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Esses elementos estão actuamente a ser examinados, com os primeiros dois minutos de música enchendo uma faixa de cinco metros de papel com gráficos, mas já se podem ver os pontos em que o ritmo cardíaco acelerou nas passagens em que Mozart colocou os sons mais fortes.”
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JACOB HALE RUSSELL E JOHN JURGENSEN
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(In: The Wall Street Journal)
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