“Por exemplo, um alemão que sabia português responderá sem hesitação que a palavra portuguesa “amanhã” quer dizer “morgen.
Mas coitado do alemão que vá para o Brasil acreditando que,quando um brasileiro diz “amanhã”,está realmente querendo dizer “morgen”.Raramente está.”Amanhã” é uma palavra riquíssima e tenho certeza de que,se o Grande Duden [o maior e mais famoso dicionário da língua alemã] fosse brasileiro,pelo menos um volume teria de ser dedicado a ela e outras,que partilham da mesma condição.
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Amanhã significa, entre outras coisas, ”nunca”,”talvez”,”vou pensar”,”vou desaparecer”,”procure outro”,”não quero”,”no próximo ano”,”assim que eu precisar”,”um dia destes”,”vamos mudar de assunto”,etc. E,em casos excepcionalíssmos,”amanhã” mesmo.
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Qualquer estrangeiro que tenha vivido no Brasil sabe que são necessário vários anos de treinamento para distinguir qual o sentido pretendido pelo interlocutor brasileiro,quando ele responde,com a habitual cordialidade nonchalante,que fará tal ou qual coisa amanhã.O caso dos alemães é,seguramente,o mais grave.
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Não disponho de estatísticas confiáveis,mas tenho certeza de que nove em cada dez alemães que procuram ajuda médica no Brasil o fazem por causa de “amanhã” casuais que os levam, no mínimo,a um colapso nervoso,para grande espanto de seus amigos brasileiros - esses alemães são uns loucos,é o que qualquer um dirá.”
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JOÃO UBALDO RIBEIRO
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(João Ubaldo Ribeiro, “Um Brasileiro em Berlim”, 2ª edição, Editora
Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2006)
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