No NRC/Handelsblad (o vespertino de maior qualidade e seriedade dos Países-Baixos) de hoje há uma pequena entrevista com Gorbatchov que aconselha os europeus a terem paciência com Putim e a não julgarem que ele queira vir a ser um ditador ou a retroceder a democracia na Rússia. Pouco tempo depois assisti em casa de um amigo neerlandês a um documentário excelente sobre os neerlandeses prisioneiros dos russos no final da IIª GGM (Segunda Grande Guerra Mundial). Muitos deles tinham sido forçados a lutar ao lado dos alemães. Outros a trabalharem na frente oriental. A maior parte terá morrido nas masmorras estalinistas. No programa são entrevistados dois dos sobreviventes e o filho de um outro que veio a falecer nos Países-Baixos. Este último chegou a trabalhar numa mina na então União Soviética com temperatura de -56º (não, não me enganei: cinquenta e seis graus abaixo de zero!). É indescritível o que eles sofreram e pouquíssimo era sabido sobre eles. Actualmente uma equipa de historiadores neerlandeses faz pesquisas nos arquivos russos para descobrirem o que aconteceu com esses milhares de prisioneiros. Este documentário é um dos primeiros resultados desse trabalho.
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Quase não passa uma semana nos P-B sem haver um ou mais programas ou documentários sobre a IIª GGM, ou sobre a ocupação deste país pelos criminosos nazis durante quatro anos sem fim. O passado está sempre +presente. Na geração desse tempo ainda em vida, mas também nas gerações seguintes, mesmo na juventude de hoje.
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Por vezes as pessoas perguntam o que diferencia os neerlandeses dos outros povos. Por que são eles diferentes, vivendo num território que pouco mais é do que o território de Portugal e, mesmo assim grande parte dele conquistado às águas do mar (“Deus criou o mundo, os neerlandeses criaram os Países-Baixos”, diz-se) ? As respostas são possíveis de encontrar na História deste país, na sua formação, no seu passado, nos seus filósofos e pensadores (Nas últimas semanas os media dão de novo muita importância à actualidade do pensamento de Espinoza, nascido nos P-B, mas filho de pais portugueses, judeus que foram obrigados a emigrar do país de Camões para o de Erasmus de Rotterdam. E de Espinoza! Um dia escreverei algo sobre ele, pois nem na própria comunidade judeo-portuguesa de Amsterdam, a que pertencia o seu espírito livre e criador – característica neerlandesa – foi na época aceite). Uma das influências enormes sobre a maneira de ser deste povo espantosamente criativo e perfeccionista pode também ser encontrada nos efeitos sobre ele da ocupação nazi (muito mais do que alemã) e na IIª GGM.
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Um povo que nao esquece o passado e vive alegre e livremente o presente. Exactamente também por isso mesmo.
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