“Porque é que a dança é tão importante?”
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- “Acho que tem esta capacidade de dizer que o corpo não é só código e convenção social, não é só o que esperamos que seja, não é só um corpo cultural. É um volume no espaço, um movimento, uma imobilidade, um ecrã que reflecte a tua própria inversão. Não é só um homem ou uma mulher, um rei ou uma rainha... Não é só uma visão social, convencional e cultural. E é um perigo, mesmo do ponto de vista político, perpetuar esta crença de que o que temos é pré-adquirido. É isso que dá as incompreensões e na não aceitação da diferença. Do ponto de vista político, dança tem um papel fantástico, que é acordar um conjunto de percepções do mundo, quer como espectador olhando para os outros corpos, quer como corpo que é olhado e que se olha a si próprio. Acorda um conjunto de instrumentos que temos mas que não são utilizados. Culpa de uma série de outras artes, sobretudo as artes mais de massa, mais ligadas à televisão, que nos levam para uma formatação e confirmação do adquirido. É a praga do século. É isso que me fascina, esta hipótese que tenho de descobrir e reinventar o mundo desde o zero, todos os dias, a cada momento que olho para uma pessoa.”
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(Cláudia Galhos entrevista João Fiadeiro, in: “Expresso – Actual”, 5 de Maio 2007)
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"Quando em Maio de 1961, André Parinaud entrevistou Robert Rauschenberg para a revista ‘Arts’, perguntando-lhe a razão da inserção dos objectos nas suas obras, o artista respondeu que «a própria pintura é um objecto, tal como a tela », definindo alguns dos aspectos principais da sua poética: «A arte do passado é, muitas vezes, uma continuação da paisagem. Os pintores que me influenciaram não pintam paisagens. Leonardo da Vinci, por exemplo. A sua pintura era a vida. Uma das suas obras essenciais que me marcou é a Anunciação em Florença. Nesta tela, a árvore, a rocha, a Virgem, têm todos a mesma importância, ao mesmo tempo. Não existe hierarquia. É isto que me interessa. Foi a partir da Anunciação de Leonardo da Vinci que teve início o choque que causou em mim a vontade de pintar do modo actual». No decurso da entrevista, o artista esclareceu também o título da sua série de obras, ‘Combine Paintings’, obras combinadas, combinações, com o propósito de não mais evocar quadros ou escultura, mas antes obras que se tornam, de certa forma, organismos vivos, espelhos onde a vida se reflecte."
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GIULIA MARRUCCHI, RICARDO BELCARI
(Giulia Marrucchi / Ricardo Belcari, "A Grande História da Arte – Século XX: Das Vanguardas À Arte Global, Público,Lisboa, 2006.)
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"Amar é cansar-se de estar só; é cobardia,
portanto, é uma traição a nós próprios
(importa soberanamente que não amemos)"
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FERNANDO PESSOA
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(Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego")
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