“O pior é que Woody acredita nos críticos. Ele diz que não lê – mas, acreditem, ele lê. Aparece aqui em casa, uma lágrima a rolar por detrás dos óculos grossos, o ‘tweed´encharcado pela chuva que cai. ‘Eu não presto, Coutinho. Nunca serei um Fellini, um Bergman.’ Pobrezinho. Encomendo o jantar no chinês aqui do bairro e depois, ao som de Harry James, inicio o tratamento. Woody, senta aí.
O tratamento
começa com uma revisão da matéria dada. Em quarenta anos de filmes, não existe um único – eu vou repetir, para vocês aí atrás: ‘em quarenta anos de filmes, não existe um único que seja realmente mau’. No próximo número de Dezembro da revista Vanity Fair, Peter Biskind, provavelmente um dos poucos críticos que respeito depois da morte de Pauline Kael, concorda comigo – ou, tudo bem, eu concordo com ele, não vou discutir quem é o ovo ou a galinha (mas eu pensei primeiro, Peter). Podemos não gostar de ‘Melinda and Melinda’, um dos mais fracos da colheita. Mas ‘Melinda and Melinda’, história contada em duas versões, como comédia ou como farsa, por grupo de amigos numa mesa de restaurante, revela um virtuosismo narrativo e cinematográfico que não se encontra na esmagadora maioria dos vagabundos que fazem filmes em Hollywood. Eu, pelo menos, não encontro – e confesso que só David Lynch e Clint Eastwood me obrigam a sair de casa com uma regularidade sazonal. (Scorsese? Depende. Muito.)”
.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
.
(João Pereira Coutinho, “Avenida Paulista”, Edições Quase, Vila Nova de Famalicão, 2007)
Recent Comments