“Aliás, não apenas Darcy Ribeiro: comento as minhas impressões com amigos paulistanos, colegas de ofício neste mundo das rotativas, e a ideia é reforçada. Sim, as ‘elites’ são ostentatórias, prepotentes, grosseiras. Profundamente racistas. Herdeiras da mentalidade Casa Grande e dispostas a subjugar as senzalas modernas com os vícios dos velhos colonizadores. Entendo. Mas, se me permitem, discordo de um ponto essencial: é um erro olhar para as ‘elites’ brasileiras como se elas fossem verdadeiras elites. Pelo contrário: as chamadas ‘elites’ são, na verdade, antielites. Elas encarnam valores e perversidades que uma elite, em sentido clássico, manifestamente repudia e despreza. Convém começar pelo princípio.
E começar pelo princípio é começar por Platão, provavelmente o primeiro grande pensador a reflectir sobre o papel das elites numa comunidade política. Sim, eu sei: leituras várias de Karl Popper acabam por pintar Platão com cores demoníacas. Um tirano que, profundamente seduzido por Esparta, sobretudo depois da derrota de Atenas no Peloponeso, ergueu um projecto de sociedade utópica, totalitária, onde o rei-filósofo comanda as massas.
Um pouco de calma. A interpretação de Popper em ‘A Sociedade Aberta’ e ‘Seus Inimigos’ é apenas uma entre várias. Na verdade, a República platónica pode ser lida, e deve ser lida, em sentido metafórico. ‘O que é uma comunidade justa?’, perguntava Platão pela boca de Sócrates, seu mestre. Resposta: uma comunidade justa é aquela onde os melhores governam com sabedoria. O argumento não é quantitativo. Não existe aqui qualquer conspiração dos poucos para dominar os muitos.
O primeiro critério é qualitativo: são os melhores que governam, não os poucos. E os melhores são aqueles que, prescindindo dos seus interesses particulares, contribuem para o todo social depois de uma educação longa e virtuosa. Uma educação que permite olhar para a Cidade como realidade colectiva, não como possibilidade de enriquecimento, ou engrandecimento, pessoal.”
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JOÃO PEREIRA COUTINHO
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(João Pereira Coutinho, “Avenida Paulista”, Edições Quase, Vila Nova de Famalicão, 2007)

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