O cinema europeu e, por conseguinte, o cinema mundial perdeu no mesmo dia dois dos seus maiores mestres. Muitas vezes esta palavra é, bondosamente, aplicada a pessoas que, por muito melhores que sejam, na verdade não a merecem. Neste caso ela parece até ser curta demais. Monstros da realização cinematográfica. Símbolos do cinema europeu, eventualmente (para ser cuidadoso) o cinema de maior qualidade do mundo no século passado. Mestres do chamado "cinema de autor". Mestres incontestáveis, mesmo que por razões diferentes, que mais a seguir apontarei resumidamente. Mestres do grupo excepcional que deram a glória e a distinção do cinema europeu, transformando-o no mais profundo e perfeito de todo o mundo. No mais intelectual também. Mestres companheiros de outros como Fellini, Visconti, Pasolini, Jean-Luc Godard. Os dois nomes que faltam neste grupo morreram no mesmo dia, anteontem. Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni. De todos estes somente ainda vive Godard. Claro que se poderia falar ainda de Buñuel, até, mais tarde, de Almodovar, Tarantino e outros.
Aqueles, porém, foram, na minha opinião, os maiores. Os que criaram os verdadeiros caminhos para um, cinema europeu próprio, específico. Vem-me à memória uma revista que sobretudo nos anos sessenta e setenta teve influência na divulgação e discussão profunda da sua cinematografia. Refiro-me aos Cahiers du Cinema.
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De Antonioni o primeiro filme que vi, repetidas vezes, foi Blow-Up. Seguiram-se os outros. A obra de Michelangelo (que nome tão bonito e tão adequado a um criador de beleza e de obras de artecom conteúdo e profundidade fortemente subtil!) coincide temporalmente com o neo-realismo fílmico italiano. Porém, não estava interessado nos pobres da classe social economicamente mais desprotegida. Os seus filmes tratavam sobretudo de pessoas e temas na sua própria classe, a burguesia. Não eram filmes "engagé". Não era um moralista, nem um neo-realista. Foi criador do seu próprio universo. Não procurava, como disse um dia o próprio, fazer filmes para os espectadores nem para fazer dinheiro. Queria fazer filmes estéticos, procurava construir o belo. Todos os enquadramentos, todas as fotografias, todos os cenários, toda a actuação atingiam a perfeição formal. Era através dela que dava uma imagem da situação da filosofia do tempo, retratos das neuroses, dos medos, das incapacidades da burguesia, a que pertencia. Era o tempo do existencialismo, que noutros tomas outras formas, utilizando outros métodos.
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Ingmar Bergman, por exemplo, privilegiava a visão psicológica da sociedade, do indivíduo. Mesmo que não com a finalidade de tanta perfeição formal, como em Michelangelo Antonio, onde a história, o enredo, tinha um papel inferior ao ritmo e às imagens dos seus filmes, havia também em Bergman uma beleza incrível de cenas, quer pelos cenários, quer pelas actuações, quer pelos silêncios e pelos cenários. No entanto neste a busca das profundezas do interior do homem, dos seus medos, da sua psicologia profunda e relacional eram o verdadeiro leitmotiv dos seus filmes.
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Lembro-me de ter visto o primeiro filme de Bergman quando estudava em Lisboa. O Júlio convenceu-me a irmos ver um Bergman no cinema São Jorge. Pouco depois do começo do filme o Júlio começou a rir baixinho. Um riso de troça. É que ele, conhecendo a língua sueca, que falava, percebia as legendas mal traduzidas, a ausência até de qualquer legendagem para português em frase enormes, certamente por causa da censura política do tempo. Censura ridícula e castradora. Tive a sorte de ter visto o filme com dois tipos de traduções quase simultâneas: as escritas na cópia do file e as que o Júlio, baixinho, me fazia ao ouvido do que realmente era dito pelos actores. Foi um privilégio, sem dúvida. Muitas vezes associo Bergman a ele por isso, mas também pelo conteúdo dos seus filmes. Mais tarde compreendi ainda melhor Bergman e os seu ambientes e personagens quando estudei o teatro escandinavo.
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Que tempo rico os anos sessenta de criação e de cultura. Cultura transversal a várias disciplinas. Cultura do género humano. Cinema com psicologia, fotografia, filosofia, poesia. Resta-nos vivo Godard, cujo "Pierrot le Fou" fez os meus encantos na segunda metade dos anos sessenta. Vi-o umas cinco ou mais vezes. Fascinava-me. Como ainda hoje me fascinam os filmes dos mestres atrás referidos. São património cultural da humanidade. Como o próprio Bergman foi declarado anos atrás. E com razão.

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