“Algo acontece, creio, no miolo de certos dias de nevoeiro no Porto – não falo deste nevoeiro que hoje está, que sobe do mar e se espalha pela cidade toda como um véu triste e frio, ou como um segundo céu, pardacento, escuro, hostil. O mistério, esse, acontece nas manhãs em que uma só e compacta nuvem corre sobre o Douro e se instala, densa, entre as duas margens, dando corpo a um bloco branco de fiapos entretecidos. Este nevoeiro, enfim, que parece um corpo vivo, um réptil gasoso que se contorce entre as casas e as estradas, que passa serpenteando e lambendo as pontes, todo concentrado sobre o rio, qual compacto rolo de véus. É disso que falo, pois, desse halo branco que persiste mesmo quando na marginal já há sol, que ali fica suspenso sobre as águas, imóvel, gasoso e, porém, concreto como um muro que separa a cidade de cá da cidade de lá. Algo acontece, creio, no interior desse corpo estranho, nas dobras do alvo túnel de nuvens, bem diante dos nossos olhos e, porém, invisível. Como num desses truques dos mágicos do circo, nada na manga e...’hops’!
Tenho feito as minhas investigações sobre os meandros deste nevoeiro e comparado o que está antes e o que fica depois que o muro de nuvens enfim se desvanece. Anoto tudo, fotografo, faço medições, recolho amostras da água e do ar, analiso, estudo – e, porém, nada indica que algo aconteça no interior da réptil nuvem. Quando, de súbito, o grande bloco branco se dissolve no ar, ficam as mesmas casas numa margem e na outra, os mesmos carros, o mesmo brilho metálico na lâmina do rio, as mesmas gaivotas vagabundeando de asas abertas, os mesmos pescadores tristes e calados, os cardumes de tainhas moendo o alimento que o esgoto traz. Tudo aparentemente igual e no seu exacto sítio, bem sei. E, todavia, há algo que se altera, um pequeno nada que se não vê, que as fotografias não captam, que não deixa rastro no ar ou na água. Nada, enfim, que alguma ciência alcance.”
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MANUEL JORGE MARMELO
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(Manuel Jorge Marmelo, “O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo”, Quasi Edições, Santa Maria da Feira, Maio, 2007)
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