“O que é a música para Pina Bausch? O que é a música na obra de Pina Bausch? Referir-me-ei de início à ideia comum que temos do teatro dançado ou bailado nas suas relações com a música para explicar que, no caso de Pina Bausch, é realmente de outra coisa que se trata.
Conhecemos antes exemplos de separação de música e teatro – estou a pensar em Cage ou em Cunningham, ou até mesmo na antiguidade -, mas há sempre, nesses casos, uma referência a um discurso musical acabado, funcional – com os seus passos vazios, musicais, que permitem o desenrolar-se da acção, ou com repetições impostas pelo movimento cénico -, que é independente ou entra em relação com uma realização coreográfica, dançada ou animada, exprimindo-a ou impondo-se a ela.
É dificil, na nossa cultura, ainda hoje e até mesmo para os que escrevem para a dança, mas sobre tudo para o teatro, fazer compreender que a encenação não é um facto visual, do mesmo modo que o não é a coreografia, ainda que se mobilize o sentido da vista. Com efeito, se olhássemos, sem a compreender, uma interpretação física, especial, intelectual, o nosso olhar ficaria absolutamente vazio.
Com Pina Bausch, é outra coisa, e bem diferente, que acontece.
Em qualquer bailado comum, podemos rememorar os trechos musicais separadamente, ou, pelo contrário no seu todo, graças a uma montagem operada pela nossa memória, que, no fundo são fragmentos do mundo aos quais um olhar lírico pode conferir uma certa unidade. É uma espécie de colagem, e não lhe conseguimos chamar outra coisa, a tal ponto são trechos de música o que informa aqui o nosso espírito. Se, por exemplo, no aparelho de rádio do nosso automóvel, uma valsa de Strauss se segue a um tango, estamos a escutar uma “antologia” de musicas diversas. Quando o mesmo acontece num espctáculo de Pina Bausch, pensamos que ela terá uma rasão que a leva a fazer assim as coisas, ainda que desconheçamos; temos a impressão de qualquer coisa que se conjuga e articula, a impressão de um conjunto. O que é, por tanto, isso que torna coerente uma colagem de elementos díspares?
O certo é que os trechos musicais não são, no caso que nos importa, apresentados como simples trechos de música. A primeira ideia que nos ocorre é que estamos perante solicitaçõs, de certo modo semelhantes às perguntas que a corógrafa não pára de pôr aos seus bailarinos.
Numa cassete-vídeo, eis o exemplo de um bailarino – para me continuar a me servir de um termo manifestamente impróprio – que utiliza a linguagem dos surdos-mudos ao ritmo de uma canção de Gershwin. Aquilo, não foi a canção de Gershwim que suscitou o procedimento adoptado. O bailarino queria exprimir-se, exprimir um facto da sua experiência, da sua existência – uma vez que está a narrar-nos a partir de que pergunta pôde nascer -, expremir que estava orgulhoso de ter aprendido a linguagem dos surdos-mudos. Que trecho lhe poderia, então, convir? O escolhido estava de certo muito bem, pois não havia uma verdadeira solicitação da parte da música. Esta já não era uma pergunta, como lhe chamei antes, mas um elemento da pergunta, ou talvez um tipo de respostas à pergunta. Se, em cena, um gramafone toca uma canção, a música não é a dada canção tocada pelo gramafone; é a do gramafone que toca uma canção.”
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PINA BAUSCH
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(Pina Bausch, “Falem-me de Amor – Um Colóquio”, Segunda Edição, Editora Costa & Polan SPA [1993] Fenda Edções, 2005)
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