“(...) Samuel Beckett viveu em Paris grande parte da vida e, juntamente com Kafka, foi o segundo escritor do século porque, precisamente, captou a alma do século. Kafka conseguiu pressentir a ameaça do horror absoluto – uma sombra invisível de fechamento espiritual e moral que não chegou a sentir na pele. Beckett, sim: ele escreveu sobre as ruínas porque sobreviveu a elas. Leio no jornalismo cultural mais preguiçoso que a literatura de Beckett é uma ‘literatura de fracasso’. Talvez seja. Mas este cliché, como todos os clichés, transporta uma simplificação grosseira: o célebre ‘fracasso’ de Beckett nasce directamente da vontade humana de não desistir. De tentar novamente, falhar novamente, falhar melhor. Se a mortalidade é a nossa única certeza, cabe aos seres humanos continuar: um gesto prometaico que, à semelhança do Sísifo de Camus, continua a rolar a pedra pela recusa do suicídio ou seja, pela recusa da saída mais simples. Mesmo Malone, às portas da morte, entende a imperiosa necessidade de continuar.”
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JOÃO PEREIRA COUTINHO
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(João Pereira Coutinho, “Avenida Paulista”, Edições Quase, Vila Nova de Famalicão, 2007)

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