“Em flash, um retrato de Henry Miller: literato, palhaço. Retoque-se: literato por fusão orgânica do acto com o verbo - «uma luta que dura a vida inteira para nos acharmos a nós próprios» (H. M.); palhaço por reflexo, em vários rostos , da comédia e da tragédia humanas.
Dos retratos possíveis, todos por fazer e alguns – os mais fiéis – já sangrados pelo próprio, não fique este deslocado na pretensão que lhe assiste: tão-só a de, sem vício pejorativo, introduzir o leitor no «circo íntimo» de ‘O Sorriso Aos Pés Da Escada’.
Já Miller engolira o mundo e já, em grande parte, o vomitara (estavam escritos ‘Trópicos’, ‘The World of Sex’, ‘The Air-Conditionned Nightmare’ e começada a trilogia ‘The Rosy Crucifixion’) quando em 1948 aceitou o convite de Léger para escrever o texto ora presente em edição portuguesa. Passado o clímax da objecção devoradora, do uivo protestatório (uivo, ‘howl’, expressão retomada por Allen Ginsberg), descido Orfeu ao inferno da ‘libido’ onde buscara encontrar o caminho – e o cântico – da Graça e da Libertação, era o momento da serenidade, pelo menos um parênteses de respiração angélica. O tema propiciava-o: «não é verdade que anjos e palhaços se ajustam divinamente bem?».
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A obra é singular e espantará quantos vejam em Miller o anarquista obsceno, o torrencial cultor do nojo. Não será caso de espanto. O homem que mais virulentamente bisturizou o «pesadelo do ar condicionado» (ao ridente ‘american way of life’ contrapôs «o pão americano não alimenta»...) nunca escondeu o apaixonado moralista para quem o mergulho integral no «fundo da noite» mais não é que «um esforço de penetração para dizer o que não pode e não quer ser dito», logo, «um esforço para regressar à fonte original», base de um humanismo depurado, magnífico, solar.”
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VÍTOR SILVA TAVARES
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(Excerto do prefácio a: Henry Miller, “O Sorriso aos Pés da Escada”, Ulisseia, Lisboa, 1966 [1948])

A edição que tenho e onde está este prefácio magnífico é de 1966, como indico. Tenho também uma edição do mesmo livro, mas sem estre prefácio, clareo, com a tradução em francês, da Livre de Poche, juntamente um outro livro-texto de Miller sobre a Arte de pintar. É certo e seguro que aí no Brasil haverá este livro em edição brasileira. O melhor é ir a uma boa livraria (infelizmente quase não existem em Fortaleza, mas costumo tentar na fiial da Livros Técnicos numa transversal à Monsehor Taboza) e pedir para eles procurarem e encomendarem. Demora tempo, se não tiverem, mas isso são coisas cearenses.... Toda a obra de Miller é excelente, mas este livrinho é uma pérola. Boa sorte e boa leitura.
Posted by: António Alegria | July 01, 2008 at 06:00 PM
Eu gostaria muito de ler esse livro, mas não encontro em lugar algum. Você pode me ajudar?
Posted by: Viviane | June 30, 2008 at 11:19 PM