“Sim, eu entendo que uma ‘bailarina fascista’ é tão improvável como Osama bin Laden de biquíni em concurso de beleza para misses: existe na combinação um choque visual profundo, como se a grosseria e o filistinismo de Hitler fossem incompatíveis com a subtileza e a elegância do ‘Quebra-Nozes’, que Simone dançou há uns meses (com aplausos da crítica).
Mas essa não é a questão. E não é a questão porque a ideia de punir artisticamente um fascista, ou um comunista, ou um chavista, ou um extremista de ideologia difusa, demonstra apenas a cobardia de quem o faz.
Cobardia real: em Londres, as brigadas insultaram quem não se podia defender. Pior: quem exercia a sua arte em palco, um acto de humilhação que só define quem o pratica. A menos, claro, que o ‘fascismo’ da sra. Clarke não se limite às suas idéias políticas e seja exibido na forma como dança: como executa o ‘demi-plié’, como faz o ‘retiré’, como arrisca no ‘arabesque’, pondo a plateia a salivar com desejos tirânicos de invadir a Polónia. Haverá um ‘ballet’ fascista e ninguém avisou?
Mas a cobardia é também intelectual: se a liberdade de expressão é uma benesse, ela implica aceitar vozes discordantes que devem ser toleradas, ou debatidas – e, em casos extremos, denunciadas por pessoas concretas que se sintam atingidas no seu bom-nome.
Existem tribunais para isso. Mas nenhuma sociedade livre será capaz de sobreviver pela criminalização da todas as opiniões que o ‘senso comum‘ maioritário considera ofensivas. Proibir é a atitude preguiçosa do tirano menor que, incapaz de tolerar, ignorar ou refutar intelectualmente uma opinião, prefere criminalizá-la.
O gesto é preguiçoso: ele transforma o extremista em mártir, e o mártir em herói.”
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JOÃO PEREIRA COUTINHO
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(João Pereira Coutinho, “Avenida Paulista”, Edições Quase, Vila Nova de Famalicão, 2007)
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