Li este texto há cerca de umas duas semanas. Não o coloquei de imediato no Amistad, pois isso poderia criar receios em grandes amigos meus que conhecem bem o que penso sobre o assunto, há muitos anos, e que foi influenciado, primeiro, por conversas com o meu grande e eterno Amigo J-H, ainda nós éramos ambos estudantes de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mais tarde, já na universidade de Marburg-an-der-Lahn, Alemanha, pela leitura de uma carta de Hermann Hesse, que dizia exactamente o mesmo e, “last but not the least” por tudo o que tenho vivido e aprendido ao longo dos anos. Hoje, enquanto almoçava peixe num restaurantezinho desta bela península setubalense, li, no jornal (que há em todos os restaurantes, cafés e barbeiros, mas que nunca compro) uma notícia sobre o suicídio ontem do ministro japonês da agricultura e pescas. Achei apropriado o momento para, com a devida vénia, aqui transcrever, sem comentários, o que lera há duas semanas:
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“Todos os anos, no Japão, mais de trinta mil pessoas se suicidam – gente de todas as idades e condições. Alguém matar-se não é uma coisa má, antes pelo contrário. O ritual do ‘hara-kiri’ é comum desde tempos imemoriais, reservado aos mais nobres, aos samurais que não conseguiam cumprir a sua missão. Assim também o ‘Shiniyuu’, comum entre os plebeus. Às vezes morrem mãe e filho (‘boshi-shiniyuu’), outras mata-se a família toda (‘ikka-shiniyuu’). Matam-se também os amantes em enamorado pacto (‘joshi’). No final da II Grande Guerra, diante da derrota próxima, milhares de militares japoneses suicidaram-se para lavar a honra da nação. Hoje, grupos de jovens combinam rituais de suicídio colectivo pela internet. Um manual de instruções para as diversas formas de suicídio vendeu mais de 1,5 milhões de exemplares no Japão. Os velhos que não podem pagar tratamentos médicos caros matam-se para não onerarem o orçamento familiar. Crianças e jovens matam-se por não conseguirem conversar sobre os seus problemas com os pais e os professores.
Existe uma tradição de suicídio no Japão – uma cultura, um modo de vida voltado para a rectidão e para o culto de certos valores. Nada é pior do que a vergonha e o fracasso. Nem a morte, pensa o senhor Kenzaburo enquanto olha a cidade outra vez, lá do alto da ponte.”
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MANUEL JORGE MARMELO
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(Manuel Jorge Marmelo, “O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo”, Quasi Edições, Santa Maria da Feira, Maio. 2007)

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