Não sei por onde começar. Esta frase dança-me no espírito há uns bons minutos. Hesito em a escrever. Seria mais um texto começado por um não. O que é certo é que esta é a frase correcta. É que não sei mesmo. Falta de assunto? Nada disso. Bem pelo contrário. Há dias eram tantos os assuntos sobre que sentia necessidade de escrever que quase me decidi a escrever só os nomes dos tópicos, tal era a dificuldade de escolha e desenvolvimento dos temas em questão, actualíssimos. Acabei por não o fazer. Limitei-me a ir fazer umas fotos convencionais para o CM do Trairi, que me pede que lhe envie imagens de por onde ando. Pedido singular de alguém que conheço há tão pouco tempo e que, nestes tempos de constantes desilusões humanas, parece bálsamo. Assim afugentei a necessidade interior de escrever sobre coisas que ferviam na minha mente. Preenchi o espaço temporal até ao jantar habitual em casa do meu irmão com toda a conversa aí interessantíssima sobre outros temas actuais que se sobreporão aos outros sobre os quais não escrevera. Hoje tive mais uma semi-desilusão. Brasileira, claro. No fundo, já prevista, e de pouco valor ou prejuízo pessoal. No entanto foi mais uma. Uma a somar-se a várias outras. Isso afectou-me humanamente ainda um pouco, o que não imaginara poder acontecer. Agora estive a ver na tv um documentário sobre os últimos dias da II Grande Guerra Mundial, visto da perspectiva de textos, comentários, afirmações, de pessoas que, as viveram. Pessoas de todas as condições. Gente anónima. As maioria destas imagens da guerra ainda não conhecia, mesmo estando habituado, sobretudo na tv holandesa a ver anualmente imagens terríveis desses tempos. Estas eram inglesas, bem feitas e muito ao rasar da gente. Fez-me pensar. Fez-me comparar a futilidade da desilusão de hoje (nada de grave) e o sofrimento daquela gente durante a guerra. Fez-me pensar na injustiça que, por vezes, acompanha os heróis. Churchill, o vencedor , o salvador da pátria, foi derrotado meses depois por não conseguir corresponder às exigências dos seus compatriotas na fase da reconstrução. Quantos inocentes foram mortos? Como dizia aquele piloto da RAF que não queria estar na pele das pessoas lá em baixo aquando de uma barreira contínua de milhares de bombas concentradamente lançadas, também por ele, sobre cada cidade civil alemã para destruir o moral dos nazis. Findo o documentário fica a reflexão sobre o que é a vida hoje. O que era então. O que de facto faz os homens serem bestas, quer quando se matam uns ou outros, quer quando são injustos ou desiludem. Faz-me pensar no abismo entre a inconsciência de um viver sem pensamento e o viver com ele. Quantas vezes penso que, possivelmente, esta vida na verdade não merece a nossa consciência. A diversão, a diversão sem limite, a diversão cabaretiana, a diversão discotequiana, sem ligar à vida e aos seus problemas, talvez seja, quem sabe?, a solução. Vivência vegetal, mas o mundo merecerá mais? Não, não estou depressivo ao escrever isto. Poderia estar. Tento só ser realista. Posso fazê-lo, pois como algumas pessoas sabem, já fiz na vida tudo o que queria fazer. Nada me resta a fazer. Daí ou tomar a decisão de me ir, posso fazer quando isso me aprouver, voluntariamente deste, ou de continuar a viver um mundo de facto com pouco de interessante ou justificação, se tomado na sua globalidade, para ser vivido. Um mundo com tanta fome, com tanta injustiça, com tanta crueldade, com tão pouca verdade, com tanta maldade, com tanta traição, com tanta dor, um mundo que aparentemente não pode ter sido criado por um deus bom ou justo, pois isso seria uma contradição, uma maldade dele próprio. Por outro lado, lembro-me da beleza das flores que ontem vi junto do mar e que fotografei para o CM que as já terá recebido lá no Trairi longínquo, do Soneto a Petrarca de Liszt por Jorge Bolet (terá um ou dois tt?) Não interessa o que importa é a esfera quase celeste a que ele sempre elevou a música de Liszt. Assisti a vários concertos dele em Utrecht. Inclusivamente ao célebre em que ele, sempre comedidíssimo, mesmo muito avaro, em dar um encore, nessa noite concedeu nada menos nada mais do que seis, sempre se retirando do palco ao fim de cada um, naquele passo pesado de pessoa de estatura enorme e digna. Ele, mais do que nunca tinha estado inspiradíssimo e fizera de cada nota um pétala de rosa rara. Sim, nós não parávamos de pé de o chamar ao palco daquela Muziktheater (Queriam destruí-lo agora para fazer um ainda muito maior, quando ele, com apenas 20 anos de existência é das salas de concertos e espectáculos mais fantásticas que continua a existir. A reacção dos habitantes da cidade e de todo o país das tulipas (onde a opinião do povo conta e não como aqui em que um PM com nome de filósofo grego, mas com diploma universitário de aquisição aparente e eventualmente duvidosa, mas com maioria de deputados partidários na Assembléia da República, está-se positivamente nas tintas para a opinião dos habitantes e persiste na teimosia e construir o aeroporto faraónico da Ota) a reacção dos utrequenses, como ia dizendo, foi tão grande que agora falam em aumentar em vez de destruir e construir um novo totalmente de raiz (o que interessa é manter aquela acústica fabulosa e aquele formato excelente belo e mulltidisciplinar da maior das suas salas de concertos e espectáculos - aqui o adjectivo espectacular é apropriado no significado e no significante - , do cântico alentejano que a Antena 1 neste momento transmite entre palavras em Inglês de uma qualquer série da tv que, de costas, não sigo nem vejo, das imagens belíssimas que vi em casa do meu irmão sobre animais em África. Lindíssimas. Da perfeição quase sobre-humana do excerto de solo clássico por Baryschnikov ontem na RTP2, na belíssima criação arquitectónica num dos livros que hoje comprei no supermercado, num impulso para esquecer a pequena desilusão desta tarde, na perspectiva dos outros dois livros que lhe fizeram companhia, um de Piet Hein sobre a vida contrastante de um holandês desde há uns 15 anos em Portugal e o outro com o optimismo dos textos da Laurinda Alves como directora da revista XIS, da beleza que é esta casa, de,de,de,de,de tanta coisa bela e positiva. Tenho consciência que quase estou a fazer algo semelhante um pobre “stream of conscienceness” (Ah, Faulkner, isto nada tem a ver com a tua, mas dá-me vontade de voltar a ti, passados mais de trinta anos de prazer de te ler!) nas teclas deste bichinho laptopiano. Como isto deve ser aborrecido de ler! Para já tudo o que é longo hoje em dia é chato de ler. Quanto mais curto, melhor. Mas faço-o porque tenho “necessidade” interior de o fazer. Não estou para burilar coisas, estou-me nas tintas para os que prefiram não lerem ou acharem uma chatice. Parem, então de ler! Mudem para um qualquer outro blogue, que os há tão excelentes e cuidados!. Saboreiem a descrição pormenorizada de um qualquer crime nos jornais (há-os diariamente nos jornais sobretudo brasileiros e, certamente, noutros, quanto mais macabros, melhores) deliciem-se com uma boa peça de teatro, ouçam e re-ouçam Keith Jarrett ou Brahms ou Bach, ou Caetano, ou seja lá o que for. Ouçam Rostropovitch, agora que ele morreu. Comparem-No, ou contrastem-no, com Yo Yo Ma, se quizerem. Preparem-se para um dia poderem ir ver a magnífica exposição sobre Arte portuguesa que a Conceição Amaral está a preparar para o Banco do Brasil vir a apresentar, unilateralmente do ponto de vista geográfico onde vai ser apresentada, sendo isso da inteira responsabilidade do BdB, quanto a mim, mas não por culpa dela, no eixo elitista Rio-São Paulo-Brasília, onde o BdB tem centros culturais, dancem, cantem, façam amor,gozem, façam o que lhes dê prazer. Tudo isso é bom e devia ser feito. Apesar de o mundo ser a merda (desculpem, queria somente dizer trampa) que é. Ah! Já sei: virão dizer uns que a culpa não é do mundo, é das pessoas! Salvaguardam assim o deus da fé que lhe assiste, isentando-o do erro de fabrico. Não são as pessoas responsáveis por este mundo? Não, francamente, cada vez perco mais a ilusão sobre a bondade do ser humano. Tenho respeito e admiração por conquistas, que apesar de tudo, consegue fazer, sobretudo a nível científico, tenho admiração enorme pelo seu talento criador, admiro excepções de bondade, coerência e consciência justa, mas a quase totalidade é na verdade um falhanço monstruoso. Ah, já me esquecia, ainda há uma praia como o Meço (segundo Piet Hein, a melhor praia de Portugal). Ainda há lugares assim. Concordo com ele. Ou as praias do Trairi, provavelmente das melhores de todo o Brasil. Sim, aí faz sentido viver. Correndo na areia, salpicando nas águas quentes, vendo um peixe saindo do mar, longe de sons e outros ruídos, vendo a nuvem rasante de areia ao sabor do vento que a molda e levemente acaricia, olhando o tempo que não corre, antes está connosco, ao nosso ritmo, ou vice-versa, olhando a trajectória do sol nas horas que passam, deleitando-nos com uma água de coco verde. Sem telefonias. Sem televisões. Sem notícias. Areia, mar, sol. Com dunas e coqueirais como resguardo natural. Talvez a única maneira ainda de se poder viver este mundo: alhearmo-nos dele, integrando-nos na natureza pacífica. E bela. Belíssima.
Post a comment
Comments are moderated, and will not appear until the author has approved them.
Your Information
(Name and email address are required. Email address will not be displayed with the comment.)

Comments