“Regresso ao Futuro”
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“As formas de arquitectura, tal como nós as conhecemos, estão profundamente gravadas na natureza e anatomia humanas. Desde as primeiras cavernas habitadas, a necessidade de protecção contra os elementos ou contra os adversários, ditou a existência de uma porta ou de um telhado. E se a natureza anatómica da arquitectura não fosse evidente em milhares de outros sítios, seria suficiente ver a cúpula e os «braços» estendidos de São Pedro em Roma para compreender que aquilo que é construído flui a partir daquilo que somos. Nem tais referências ao corpo limitaram a arquitectura antiga. Com as tarefas essenciais de protecção há muito dominadas, o valor simbólico da arquitectura, como por exemplo enquanto expressão de poder, continua a procurar a sua legitimidade nos factos mais básicos da existência humana.
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Apesar de a economia moderna e de o desenvolvimento urbano terem privilegiado uma arquitectura cada vez mais efémera, a virtude vitruviana da «solidez» continuou a ser outra das premissas profundamente enraizadas da arte do construtor. A «flexibilidade» é valorizada em muitos designs, mas raramente os arquitectos imaginam que o seu ostentoso trabalho deveria mudar com o tempo. Isto é, eles não imaginaram tal possibilidade até muito recentemente. Alguns arquitectos americanos, como Frank O. Gehry ou Peter Eisenman fizeram várias tentativas bem publicitadas de romper com o molde das formas da arquitectura tradicional. Gehry assumiu uma grande medida de liberdade artística, ajudada por sofisticado software de computador originalmente concebido para o design de aviões de combate. Não se pode dizer que edifícios tais como o seu Guggenheim-Bilbau encaixem facilmente nos modelos do passado. E apesar de esta estrutura particular estar revestida de titânio, a sua própria solidez parece dissolver-se numa complexa orquestração de curvas não-euclidianas.
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E se as formas livres de Frank O. Gehry fossem apenas o primeiro passo na libertação da arquitectura da sua herança ancestral? Não a ‘tabula rasa’ de Gropius, mas sim o início da busca para uma nova arquitectura. Aqui, as questões da função e custo desempenhariam certamente um papel muito importante, mas esta nova arquitectura existe na sua grande maioria apenas em ecrãs de computador, não podendo estar por isso sujeita às mesmas restrições mundanas como acontece com as suas primas de aço e betão. Imaginemos novos programas tais como os chamados «algoritmos genéticos» que são capazes de criar formas que os mais inventivos arquitectos não poderiam conceber. Algumas corajosas almas imaginam que a arquitectura pode existir como disciplina sem nunca deixar o ecrã, como um exercício intelectual, formal e artístico. Outros já estão a assumir o salto do verdadeiro ‘design’ de computador para o mundo «real», e as formas de um novo mundo estão a começar a surgir.”
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PHILIP JODIDIO
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(Philip Jodidio, “Architecture Now”, Vol. 2, Taschen, Köln, Alemanha, 2007 [2002])

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