“Antropologia Escultural”
“As inquietudes na arte simbólica de Samuel Guimarães”
“Não é nada fácil interpretar a arte de Samuel Guimarães, que há mais de dez anos realiza incontáveis visitas às tribos indígenas brasileiras, especialmente na Amazônia. Dessa convivência, ele vem recriando esculturas e objetos cujos significados e formas traçam a própria visão de mundo desses povos, marcada por mitologias, signos e arquétipos. Sua arte é densa porque não quer representar ou narrar a realidade. Ela é simbólica, pois, em vez de deter-se na figura, recorre ao mito. Convida o espectador a adentrar em um universo próprio, onírico.
Também entram em seu repertório referências de origem afro, como mostram as peças exibidas na exposição “Samuel Guimarães – Out of Brazil”, em cartaz na galeria Collyer Bristow, em Londres. “ Busco trabalhar a idéia de identidade”, explica ele. O efeito estrondoso da mitologia afro-ameríndia fornece uma multiplicidade de imagens que fogem às interpretações absolutas, pois os símbolos são compostos por camadas de significados complexos. As catástrofes, por exemplo, podem sugerir um sentido ambivalente: em determinadas sociedades, destruição: em outras, fecundação e renovação.
Esse relativismo poético deixa a cada espectador a mensagem que mais alcança seu mundo interior e talvez seja aquilo que menos ele queira ver. Cria-se assim um paradoxo arrebatador: o que menos se quer ver é o que mais salta aos olhos. A arte de Guimarães ao mesmo tempo fascina e assombra.
“Faço uma antropologia escultural”, explica o artista, em seu estúdio em Brasília, enquanto prepara para a exposição londrina uma série de esculturas representando cabeças humanas, pintadas em tom vermelho e com as bocas costuradas. O artista explica que a obra remete à ritualística do oferecimento das cabeças de povos subjugados como troféu.
São temas que, narrados entre povos de todas as épocas e religiões, falam do sentido da vida, das contradições entre seguir as regras impostas ou os impulsos. Apesar de a figura humana não estar muito presente nas imagens do artista, animais. deuses e seres híbridos incumbem-se de falar ao homem por meio de seus mitos.”
ALESSANDRA SIMÕES
(Lido em: revista TAM, nº33, Novembro de 2006).
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