“AUTOGRAFIA"
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"(...) Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por
onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
Lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir
a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência
solar
estou em franca ascenção para ti O Magnífico
na cama no espaço de uma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos
jornais
nem lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado
perdido
entre lagos de incêndio e o teu retrato grande !"
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MÁRIO CESARINY
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(Mário Cesariny, "Pena Capital", 2.ª edição, Assírio e Alvim,
Lisboa, 1999)

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