"A QUESTÃO DA OBJECTIVIDADE"
"É verdade que a relação que a fotografia mantém
com a realidade aparece como sendo diferente; contudo,
não é menos verdade que esta prática se desenvolve a
partir de dados como o enquadramento ou o campo, que
fundamentalmente não se modificaram: de facto, as
pesquisas sobre a perspectiva e a construção do espaço
figurativo já tinham permitido no passado aperfeiçoar a
câmara obscura, modelo em que, de certo modo, se
inspirou a máquina fotográfica. A verdadeira revolução
vem, na realidade, da química, que vai fixar a luz. Convém
recordar que, etimologicamente, a palavra fotografia
significa "escrita da luz", e que não existe fotografia sem
luz, pelo menos até um período recente da evolução da
tecnologia. Se a pintura se afastou, pouco a pouco, de uma
prática figurativa marcada por preocupações de ordem
realista, foi precisamente porque a fotografia se propôs
substituí-la nesta tarefa, se ofereceu como uma forma de
representação mais segura, devido ao facto de o
procedimento ser considerado cientificamente irrepreensível
(relativamente a uma forma de representação manual). O
que conduz pouco a pouco à ideia, hoje muito comum, de
que o valor de um testemunho trazido pela fotografia não
se discute; que este tipo de documento atesta a veracidade
dos factos. "Foi assim que as coisas se passaram", seria a
fórmula consagrada e sempre subentendida. Por outro lado,
se a fotografia está realmente fundada no princípio de uma
representação analógica (a palavra analogia é retirada aqui
de Roland Barthes na sua obra "Le Message
photographique"), então ela não pode ser geradora de
obras de arte. O debate travado por Baudelaire sobre a
incompatibilidade entre a arte e qualquer produto ou obra
derivados da ciência (a fotografia é, justamente, um desses
produtos), prolonga-se hoje sob outras formas. Veremos,
um pouco mais adiante, de que maneira os fotógrafos do
século XIX ultrapassaram este problema. Enfim, pretender
que não se sabe responder à pergunta: "Como distinguir
entre boa e má fotografia?", fenómeno relativamente
corrente, é outra forma de retirar a esta "arte" (tomada em
sentido etimológico da palavra "técnica") o direito de ser
um modo de expressão por inteiro. De facto, tudo isto não
passa de um pressuposto, de uma ideia recebida, que
tende a considerar, de forma imutável, a prática da
reportagem como um testemunho fundamentalmente
objectivo. Ora a fotografia é algo muito diferente da
simples imagem de um fragmento do real, mesmo se, no
caso da reportagem, o real, ou mais exactamente a
realidade, não for manipulada, ajustada, encenada, como
no da fotografia em estúdio, em que pode ser construída ou
reconstruída de uma ponta a outra."
GABRIEL BAURET
(Gabriel Bauret, "A Fotografia – História . Estilos .
Tendências . Aplicações" , Edições 70, Lisboa)
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