Amanhã o povo brasileiro vai votar na segunda volta das
eleições presidenciais. Nada sei ou conheço sobre o
candidato adversário de Lula. Felizmente desta vez a
imprensa portuguesa não deu muita importância a esta
eleição. Mesmo assim mais do que a brasileira costuma dar
às eleições em Portugal. Lula era até à descoberta da
sucessão de escandaleiras relacionadas com o seu partido e
com colaboradores muito próximos dele, o meu favorito. Já
lá vai um tempão. Depois disso passou a ser um igual aos
outros. Desejo que o povo brasileiro escolha um presidente
não-corrupto e incorruptível. Não sei se o vai fazer.
Já ouviram falar num ex-presidente que foi destituído do
cargo e que agora foi eleito para governador de um Estado?
E que dá o apoio a Lula e que este o aceita? E de um outro
que até chegou a ser preso em França por umas notas
quaisquer (não não me estou a referir às verdinhas
apanhadas na cueca) e que agora ganhou a eleição para
governador de outro Estado? Muitas histórias me têm
contados nestes últimos anos de políticos que foram
acusados, indiciados ou simplesmente falados de
actividades menos legais, geralmente ligadas a notinhas
e... acabaram alguns deles por ser eleitos ou reeleitos
para o cargo a que se candidataram logo a seguir ou anos
depois. Pois é. Até parece que dá resultado.
Seria muito interessante que uma universidade brasileira
respeitada lançasse uma investigação sociológica, científica,
profunda e exemplificativa sobre o modo e a razão por que
o brasileiros votam, nomeadamente sobre a percentagem
de votos em candidatos que foram acusados de abuso do
poder, ou outros, em cargos anteriores. Uma investigação
bem a sério e séria, não corruptível. Não superficial, como
tanta coisa acontece nesse país que tanto amo. Seria
interessante ler os resultados e tirar a ilações. Terá a ver,
por exemplo, com a obrigatoriedade de voto (sistema que
no mundo julgo, não tenho a certeza, somente ser
praticado ainda em qualquer ditadurasita ainda
remanescente) para toda a gente? É que num país com
vasta população com tanta falta de cultura e de consciência
política séria, talvez não seja desprezível o número
daqueles que, sendo obrigados a votar, acabem por votar
no nome mais ouvido, mais falado. Ora um qualquer senhor
que tenha sido muito falado por malfeitorias políticas, pode
acabar por receber votos por isso mesmo, mesmo que o
votante nunca tenha querido votar num malfeitor. Isto é
tão somente uma ideia num sábado em véspera de partida
para uma outra semana em Marrocos. O interessante seria
mesmo a tal investigação e, sobretudo os resultados da
mesma.
Para terminar, aqui transcrevo, com a devida vénia,
duas citações, por mim lidas e descontextualizadas, ambas
publicadas no "Expresso" de hoje, o mais influente e lido
semanário político e cultural português:
(...)"Lula cresceu com um partido populista, sem programa,
que foi agregando os deserdados da esquerda. Chegou a
Brasília prometendo mudar muita coisa, mas o choque com
a realidade foi forte e o novo Presidente, que gostava de
proclamar a sua profissão de torneiro-mecânico, mudou
muito pouco. Foi-se habituando, não só à política como, ao
que parece, à endémica politiquice brasileira onde se
compram votos e despacham adversários. Do 'mensalão' ao
'dossiêgate', parece não haver escândalo em que o PT, o
gabinete de Lula ou os próximos de Lula não estejam
envolvidos." (...)
"(EDITORIAL)"
"Uma Tragédia Democrática"
"Os brasileiros vão reeleger um Governo corrupto porque,
em linguagem prosaica, estão-se relativamente nas tintas
para a corrupção."
"Escrevi há precisamente um ano que, apesar do 'mensalão',
Lula seria reeleito nas eleições segintes. Não reclamo
nenhuma sapiência especial: uma temporada em São
Paulo, em pleno escândalo, ensinou-me rapidamente que o
amor a Lula não é propriamente racional. É uma mistura de
pobreza extrema (entre as massas), efabulação ideológica
(entre os intelectuais) e má consciência de classe (entre as
elites) que, de cima a baixo, constitui o cimento de uma
nação inteira. Este ano, regressei ao país em período
eleitoral e, depois de escapar ileso a um assalto à mão
armada no <<lobby>> do hotel (uma atracção turística
sem nada de relevante), entendi uma vez mais que os
problemas sérios do Brasil, a começar pela criminalidade
feroz em que Rio e S. Paulo vivem e sobrevivem, são
minudências para a relação profunda entre o caudilho e a
sua tribo. Verdade que Lula foi obrigado a disputar a
segunda volta, um pequeno embaraço motivado por nova
roubalheira (o caso do dossiêgate)" (...)
"(JOÃO PEREIRA COUTINHO)"
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