"O CÉREBRO MELHORA COM A IDADE"
"A vida é preciosa, o tempo também e envelhecer deixou
de ser uma fatalidade. No sentido neurológico do termo,
pelo menos. Quem o diz é Gene Cohen, gerontólogo norte-
americano, director do The Center on Aging Health &
Humanities no The George Washington University Medical
Center, citado recentemente pela revista Newsweek.
Contrariando quase tudo o que tem sido dito até agora,
Cohen garante que o cérebro humano não perde
plasticidade a partir dos 20 anos e esclarece que os
neurónios também não se apagam assim tão facilmente
como acreditávamos. Muito pelo contrário.
A boa notícia deste especialista em envelhecimento é que o
nosso cérebro afinal não perde as suas capacidades de
adaptação. Esta verdade científica vem confirmar uma
realidade que alguns reconhecem em si ou nos que estão à
sua volta: há septuagenários e octogenários que mantêm
uma surpreendente forma física e intelectual.
Reduzir a velhice à idade biológica é um erro, portanto.
Uma e outra são duas realidades distintas e, daí, fazer cada
vez mais sentido associar a idade às circunstâncias
específicas de cada um, bem como à sua atitude, ao seu
estado de espírito e à sua condição física.
Aos trinta anos podemos ser mais velhos do que aos
cinquenta e todos conhecemos exemplos de pessoas
incrivelmente novas ou incrivelmente velhas em todas as
idades. Voltando às conquistas das neurociências e à teoria
de Gene Cohen, este especialista diz que é urgente rejeitar
algumas ideias pré-concebidas e perceber que o cérebro
não se reforma aos sessenta anos. Em certos casos até
pode nunca chegar a perder algumas das suas melhores
capacidades. Cohen diz que com o avançar dos anos o
cérebro descarta as emoções mais negativas e só o facto de
se desembaraçar deste fardo pesado, permite-lhe ficar mais
apto para manter vivas as conexões entre neurónios. Claro
que o cientista desenvolve a sua teoria com muito mais
detalhe e rigor do que aquele de que sou capaz mas,
resumindo aqui o essencial da sua verdade, o que Cohen
diz ter provado é que os pensamentos e recordações
acumulados ao longo dos anos se traduzem em ligações
mais ricas entre os neurónios, fortalecendo particularmente
as interconexões entre os dois hemisférios cerebrais.
Apesar de um cérebro sénior não ser tão rápido a processar
e a desmultiplicar a informação como o cérebro de jovem
adulto, o cérebro mais velho (em bom estado de saúde,
note-se) ganha uma nova flexibilidade que lhe permite
optimizar algumas das suas capacidades.
Gene Cohen especifica e declara que os mais velhos podem
revelar uma excelente memória e uma extraordinária
capacidade de julgamento e de dedução. Ainda que
traduzida por palavras muito simples e, porventura
redutoras, esta nova verdade científica é muito
encorajadora para todos. Mais velhos e mais novos.
Embora uns prefiram acreditar que a capacidade de deixar
para trás algumas emoções negativas decorra de uma
sabedoria de experiência feita, Gene Cohen garante que
este fenómeno também é biológico. Diz ele que as
amígdalas cerebrais, alojadas sob o lobo temporal, onde se
processam emoções primárias ligadas ao instinto de
sobrevivência como o medo, a cólera e a agressividade,
reagem com menos vivacidade num sénior do que num
júnior.
Por tudo isto e porque esta semana falamo das vantagens
da maturidade, aqui fica mais esta conquista: um
pensamento mais leve e mais livre."
LAURINDA ALVES
(Editorial "À Luz do Dia"de Laurinda Alves, directora da
"XIS – Ideias para Pensar", nº371, 12 de Agosto 2006)
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