“ <<Cá está outra vez a cidade da alegria>> - foi a primeira coisa que pensei. Como é bom voltar a Marráquexe, a mais mágica das cidades do deserto! Devagar, deixamo-nos engolir pela cidade, caminhamos ao lado da multidão, em ruas onde se conquista, metro a metro, espaço disputado aos piões, burros, carroças motos, bicicletas, carros. Uma corrente eléctrica de fraca potência filtra a poeira suspensa no ar e caminhamos como se estivéssemos dentro de uma nuvem – de vozes, ruídos, cheiro a lenha queimada. Metade da cidade está atrás dos balcões das lojas de rés-do-chão e a outra metade circula ao longo delas. Não deve haver ninguém que fique dentro de casa assim que o Sol se põe: é como se a cidade inteira celebrasse a vida todos os fins de dia.
Não tenho pressa, Marráquexe não é para ser vista em ritmo de excursão, com programas de visitas a cumprir. Conheço alguns segredos escondidos no souk, portas altissímas de pesada madeira de cedro virgem que abrem para palácios inimagináveis onde tudo está na mesma como estaria há duzentos anos, pátios no meio do caos das ruelas onde, em vez do ruído que se espera ouvir das ruas lá de fora, só se escuta o som da água a correr num tanque em cuja superfície flutuam pétalas de rosa. Sei que mais tarde me sentarei num pátio assim, alguém trará um copo de vinho, uma travessa de tagia marrakchi, finas fatias de galinha cozida ao vapor com limão e azeitonas, e depois trarão uma bacia de água para lavar as mãos. Conversarei em francês com o dono da casa, discutindo a influência dos astros nos negócios da vida porque aqui nasceu a astrologia, e subiremos ao terraço – de todos os terraços se avista a cidade porque as casas são todas da mesma altura – e na noite densa de estrelas procuraremos no céu de Marráquexe o cometa Hall-Bopp que indica o nordeste.
De manhã cedo, nos jardins perfumados do Mamounia, vou ler o jornal com o nome mais bonito do mundo – Le Matin du Sahara -, caminharei na alameda das oliveiras em cujos troncos majestosos se enrolam as buganvílias em flor, irei até ao antigo pavilhão de caça conversar com vendedor de tapetes, <<vraiment ton ami>>, e, como num filme, encostar-me-ei ao banco de trás de um caleche de pneus de borracha, deslizando sem ruídos e sem destino certo pelas ruas da cidade vermelha, embalado pelo som do monólogo do condutor zorolho da caleche com o seu velho cavalo manco. Pararemos na loja de especiarias junto aos Túmulos Saadianos, escolhendo, de entre as centenas de frascos de todas as cores existentes, um chá para as enxaquecas e outro para o mal de vivre judaico-cristão.”
MIGUEL SOUSA TAVARES
(Miguel Sousa Tavares, “Sul - Viagens”, Oficina do Livro, edição nova e aumentada, Cruz Quebrada, 2004 [1998])
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