“Se me perguntassem hoje, qual terá sido o autor psicanalítico que mais contribuiu para que compreendêssemos o funcionamento inconsciente mais profundo e primitivo, não teria dúvidas para responder: Melanie Klein. A estranheza das formações do inconsciente desafia todas as nossas medidas de bom senso. Melanie Klein ensina a pôr de lado o bom senso e o comedimento para compreender o carácter autônomo e demoníaco das fantasias inconscientes. Esse carácter é “demoníaco” pois irrompe à nossa revelia, possuindo-nos e buscando expressão através de nós e fora de nosso controle.
Os casos clínicos da autora ajudam a captar o carácter autônomo, a alteridade do funcionamento inconsciente em relação às experiências cotidianas. Há uma canção de Chico Biarque e Milton Nascimento que fala sobre aquilo “que não tem medida, nem nunca terá”, nossas onipotentes e desmedidas paixôes – amor, ciúme, controle, posse, ambição, inveja, raiva - , com seu carácter indomável, ilimitável e insaciável: “que não tem governo, nem nunca terá”. É um mundo de desejos que disparam à nossa revelia e ameaçam ultrapassar-nos, transbordando. Diante da autonomia dos “quereres” inconscientes, vindos de outro lugar e que nos marginalizam em relação àquele nosso “eu” mais bem comportado, o poeta se pergunta “O que será que me dá?”. Assim, mostra seu espanto dante do desejo que quer tudo abarcar: plenitude da satisfação, onipresença e posse exclusiva do objecto de amor. Demanda grandiosa de amor absoluto, urgente, irrealizável, desinada à frustração: é isso que Klein considera o carácter “infantil” – isto é, insaciável – de todo desejar humano em sua fonte mais inconsciente e arcaica, ponto de nascimento da angústia, das ansiedades mais primitivas e difíceis de atravessar.
“O infantil é uma dimensão fora do tempo, um fundo ameaçador, dada a imensidão de sua demanda. Idioma primitivo que que ainda não aprendeu a falar (infans quer dizer “ que não fala”) faz um apelo de acesso figuração, quer se formular a todo o custo, quer se revelar. Existe no mais inconsciente recesso, secreto, pulsante, em todos os processos psíquicos e em todas as idades, não apenas no início da vida. Invasivo, posto que busca um intérprete que possa lhe dar nome e figura. “O que será que me dá?”, como diz a música.”
ELISA MARIA DE ULHÔA CINTRA
(Excerto de: Elisa Maria de Ulhôa Cintra, Pensar as feridas, em: Melanie Klein – a ampliação dos limites da vida psíquica, Colecção Memórias da Psicanálise, edição especial nº3, Viver Mente e Cérebro, revista das ciências da mente)

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